Tripé? Tô fora!

kidbengala

(uma percepção das antigas de economia, em parceria com Jorginho, o Carvoeiro (*))

Somos de uma época em que à expressão Tripé se associava alguma piada duplamente indelicada, em geral envolvendo de um lado algum afrodescendente ou anão e na outra ponta a vítima involuntária de atos de sodomia. Lá se vai meio século de idade, mesmo caldo de cultura generacional do humor do Casseta, algo obsoleto nos modos civilizados d’hoje. Mas fato é que, se visualizarmos a piada, ela envolve dois suportes e um terceiro elemento, de desmedidas proporções, que é usado como instrumento de violência.

Entre meta de inflação, superávit primário e câmbio flutuante, certamente alguém pode ver um par de pernas nas quais uma economia caminhe (porque, afinal, tripé de vasinho de plantas é prá ficar parado sem cair em chão irregular, não vai a lugar nenhum), e a ferramenta de abuso e arbítrio que mantém a economia parada, dolorosamente parada.

Muitos elegem o câmbio flutuante como essa imposição cruel atochada na economia, fazendo com que as empresas brasileiras se sintam diminuídas, sejam exportadores que não mais dão conta de seus mercados externos, seja a própria perda de competitividade em casa da nossa indústria. Esses têm a certeza de que a fixação de um dólar nas devidas alturas daria a folga necessária à economia para que ela voltasse a crescer, para que o país voltasse a se desenvolver. Com gasto público e inflação sob controle, iríamos para frente, a economia seria desatolada.

O problema é que o temor de que o cambio desvalorizado possa causar inflação, perversamente, faz esvaziar ainda mais a política fiscal. Qual seja, para que tenhamos uma inflação sob controle sem juros reais extorsivos (ou sem a divina intervenção da fadinha da confiança nos espíritos animais do empresariado, mas isso é outra história), a contração continuada do gasto público se faz necessária. Gasto (e investimento) público que é uma das componentes dessa soma chamada PIB, coisa que escapa ao conhecimento geral do público leigo e de diversos recentes candidatos à presidência.

No fundo, isso reflete uma espécie de crença de que o PIB na equação (X – M) + C + I + G = PIB é fixo, e que o montante que cada uma das letrinhas leva é tirada no palitinho entre elas. Assim como a fadinha, a Lei de Say faz parte do imaginário infantil da economia. O que não quer dizer pureza ou inocência: qualquer um que tenha visto seus filhos jogando minecraft sabe a perversidade e a violência que conceitos infantis admitem. Assim, para que o investimento (I) aconteça sem inflação ou déficit externo (X-M), é necessário que o consumo das famílias (C) segure sua onda e que o gasto do governo (G) recue. G, portanto, é aquele ponto obscuro, que deve ser indetectável nessa concepção da economia.

Os que questionam o câmbio flutuante vêem (X-M) como a solução de crescimento do PIB. Com consumo e gasto público sob controle… Bresser, Delfim e variantes diversas desse discurso.

Essa obsessão leva a uma economia parada, estática, sem vibração. Para que o PIB cresça é necessário que as coisas se ponham em movimento. Neste sentido, nós (o Samurai e o Carvoeiro), divergimos. O Carvoeiro vê a meta de inflação, que na verdade é um discurso justificador de uma política em relação a juros, um jogo de cartas marcadas onde o investimento é posto para escanteio na ficção de uma meta a ser atingida. Já o Samurai acredita que o ponto onde o tripé imobiliza nossa economia é o G, o gasto público. O superávit primário e a Lei de Reacionarismo Fiscal, peça fundamental do arcabouço neoliberal que os 90 nos deixaram são hoje os obstáculos para que o país possa, sequer, andar de lado. A exploração desses pontos fica prá outra ocasião.

Mas, sinceramente, se pensarmos bem, o tripé é como a ave do paraíso, criatura alada sem pernas. Melhor: um cão, como Cérbero. Entendeu ou quer que eu peça para o Seth (Jonah Hill em Superbad) desenhar?

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