Cunha ou A Ilusão do Poder Parlamentar

Onde estiver meu amigo Luciano, saiba que estou pensando nele agora. Um quarto de século atrás, o mais brilhante dos cientistas políticos da minha geração observava que a Lógica do Olson (um resuminho prá quem não conhece) era um dos dois melhores livros das ciências do homem na segunda metade do século XX (qual o outro? Não lembro). E vendo a comédia de Cunha, Olson é a explicação não anecdotal que me vem à mente.

Quando Cunha foi eleito presidente da Câmara, pensei que seu objetivo de médio prazo seria lançar-se a prefeito do Rio. Afinal de contas, esta é uma cidade governada pelo seu PMDB, e, muito embora não tenha sido o mais votado do partido na cidade, certamente ele seria um nome muito forte. Controverso, mas forte. E esse seria um passo seguinte de carreira bastante razoável. Prefeito do Rio é uma das dez mais gordas canetas do país e Cunha sairia da presidência da Câmara em 2017. Nada como sair para um lugar tranquilo, longe dos estragos que ele tivesse cometido. Claro que haveria o eleito de Paes no meio do caminho – que inclusive foi mais votado para deputado do que ele na Cidade – mas nada que uma tensa negociação política não resolvesse. Afinal de contas, citando um conceito genial d’outro brilhante amigo que não vejo também há anos, Cunha seria a repaginação contemporânea, alerjicamente ungida, do Populismo Teocrático.

E, como tal, Cunha portou-se como se Mohamed Morsi fosse. Forçou uma pauta para salivação dos cães farisaicos do moralismo (não só, mas, principalmente, evangélico), flertou com qualquer tipo de ameaça ao Governo, fez-se notar como membro da linha sucessória… em suma, tocou o terror. Se o fez de forma pensada, se o fez cedendo a algum tipo de chantagem (uma hipótese conspiratória que não deve ser descartada, mas que não é a que sigo aqui), fato é que Cunha tentou alçar um voo maior do que suas asas.

E as asas de um presidente da Câmara são mais limitadas do que se possa pensar. Só porque a Câmara é maior que o Senado, não que dizer que isto lhe dê alguma relevância especial. Pelo contrário. A Câmara é uma casa de interesses fragmentários, com pessoas eleitas com pautas muito específicas. Assim é, assim deve ser. Mas isso implica que criar e manter uma unidade, um grupo coordenado capaz de impor seu comando sobre a Câmara, é muito complexo. Nosso Orçamento é autorizativo (o que quer dizer que sem concordância de uma caneta do lado do Executivo o processo não se completa), com baixa intervenção dos parlamentares, logrolling não tem tradução apropriada nem para a língua nem para a prática parlamentar nacional, derrubar um veto do executivo é um evento portentoso, incompatível com os esforços possíveis para os pequenos ganhos envolvidos. Olson!

Cunha não foi a primeira vítima – e certamente não será a última. Maluf achou que ter o presidente da Câmara (Flávio Marcílio) de vice seria a melhor forma de garantir o que era o maior contingente do Colégio Eleitoral. Meses depois viu o preterido Senador José Sarney presidente da República. Ulisses presidiu a Câmara e o PMDB. Nem por isso conseguiu se classificar sequer na segunda fila da eleição de 89. Ibsen brilhou como presidente da Câmara que cassou (o agora senador Collor) para depois ser cassado. Húbris!

Por mais confusão que esteja a criar, Cunha não passa de mais um pobre diabo. Do Acusador, cuja aposta nos reduz à miséria como Jó, creiam: men of wealth and taste, círculo além da legião parlamentar. Luciano, ao menos o Deus de Lutero nos livrou de jesusalegriadoshomens.com.br.

Anúncios