O inimigo errado

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4) A criação de um caminho alternativo universalizável para toda a nação: um antiestatismo sob a condução dos interesses de mercado do estado de São Paulo; (A Tolice da Inteligência Brasileira, pg 49).

Era uma vez o Jornal Nacional, que reza a lenda tinha esse nome por inspiração do  Banco Nacional, fundado por Magalhães Pinto, uma das lendas da democracia brasileira (que por ela se manifestou, que nela foi eleito, que apoiou sua derrubada, que apoiou sua retomada), por obra e graças do salvador PROER absorvido pelo Unibanco, que foi fundado em Minas, migrou para o Rio, viu seus Moreira Salles entronizados na nobreza histórica, migrou para São Paulo em 83 e de lá operou até, uma dúzia d’ano depois de ter engolido o Nacional, ser absorvido pelo Itaú, o qual nasceu paulista. Pra quem não sabe, o guarda-chuva do Nacional é o símbolo no capacete de Senna.

Era uma vez o Bamerindus, banco do homem do chapéu, seo Zé, que militou um pouquinho na política, banco e dono que eram o campo paranaense, que pelas artes do PROER foi entregue ao multicontinental HSBC, um banco com muitas, muitas histórias. O HSBC está indo embora, e “agora é BRA!!”

Era uma vez o Banco Econômico, que começou quando Pedro II era regido, que por artes do PROER passou por espanhóis para terminar no Bradesco.

Mas deixemos de era uma vez e sugiro, para algo mais detalhado sobre concentração bancária, uma leitura deste pequeno texto de Ary Cesar Minella. Se tiver preguiça, leia só o trecho intitulado “Os grupos econômicos e outras participações acionárias”. Mas não deixe de ver este simpático link do Valor de 100 Maiores Bancos e repare: nos 10 primeiros, o único privado nacional fora de São Paulo é o BTG-Pactual, cujo CEO era André Esteves até este ser “englobado” pela Lava Jato. Repare que o 16º é o banco da Volkswagen, que creio eu se dedica ao financiamento dos carros e caminhões dessa empresa. Isso diz muito sobre concentração. E ele, obviamente, fica em São Paulo.

Bem, se pegarmos a planilha da lista das maiores construtoras, o quadro é um pouco distinto. Para o mesmo ano de 2014 temos um top five de Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. E embora na planilha você veja sedes no Sul Maravilha dessas empresas, a Odebrecht é baiana (e Bahia é o middle name do Marcelo, “englobado” pela Lava Jato), a OAS é baiana, a Queiroz Galvão /  Galvão Engenharia, Pernambuco.

A operação Mãos Limpas começou em Milão. Ao final dela, Berlusconi, presidente do Milan era o centro do sistema político italiano.

Portanto, há quem queira ler uma tentativa de 1954, de 1964, de golpe da burguesia contra o povo, de intervenção externa. Sorry moçada, mas o inimigo é outro, bem como outros são os seus aliados. Nassif, Mino Carta e demais paulistas da imprensa de esquerda (bem como os Pochmann da vida na Academia) são caras com a vida cotidiana construída no cotidiano do convívio e da cordialidade das elites paulistas. Assim como eles, muitos dos demais nomes chaves da condução pública do governo Dilma, como o homem do Banco do Brasil que paraquedou na Petrobras (não que haja algo de errado, se você não levar em conta as mulheres ricas). “É difícil fazer um homem entender algo quando o salário dele depende de não entendê-lo”, dizia Upton Sinclair (e algum cínico pode chegar e dizer que isso também se aplicaria a mim), mas enquanto esse povo da esquerda de São Paulo não se entender como parte da equação de exploração deste país, o mistério continuará.

O que há, no momento, é uma tentativa desesperada de reencenar 1932. O que há é uma luta desesperada de restaurar a hegemonia paulista (na qual os paranaenses fazem o papel de Robin). As alianças e os confrontos dessa luta ficarão para outro texto, por urgência, para seguir a sugestão de uma amiga que reclamou dos textos muuuuuuito longos.

Mas fechando este agora, retomando o Jesse: no seu ótimo livro ele acaba caindo numa ficção de um nacional que não leva o local em conta, numa ficção de classes sem espaço físico em que elas ocorrem. Centro-periferia não se dá no espaço anárquico entre as nações, mas também em espaços jurídicos definidos como Maastrich para a hegemonia alemã, como o Maastrich da hegemonia paulista que é a LRF. ECB e BACEN, Deutsche e Bradesco.  É um dos poucos problemas (que eu diria menores) num livro demasiado necessário, demais de bom.

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