Inês é Morta/Dunquerque

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Sejamos realistas. Acabou.

Por mais que se faça um carnaval o golpe está consumado. O golpe está consumado desde o dia em que a PGR resolveu que o Lula não poderia tomar posse; desde o dia que o STF resolveu que o processo de impeachment poderia seguir em frente com a sequência de votação proposta pelo Cunha.

O que se passou no domingo seguinte foi apenas o reconhecimento por parte da pragmática Câmara de Deputados que o golpe havia sido dado, que não eram meros tanques de Minas – era a Instituição em peso. Otários que não são, aderiram. Como em 64. Como em 85. Como em 92.

Não que manifestações não devam ser feitas. Mas, como as cartas de amor, elas são inúteis. Pois cartas de amor essas manifestações são. Mas Inês é morta, Dilma em breve deposta, com sua empáfia, com o seu narizinho empinado de coxinha honesta –  e é isto que ela é, coxinha honesta. Lembro de alguém no Pasquim, um daqueles gaúchos ultra-banidos pela ditadura, ter dito que havia dois Jangos em Jango – o líder de esquerda e o estancieiro – e que no final Jango, o fazendeiro triunfou sobre o potencial revolucionário. Dilma é a mesma coisa: militante de esquerda de um lado, economista tecnoburocrata do outro, com sua classe de fato triunfando sobre seu proferido alinhamento.

E agora? Bem, agora é hora de começar outra luta. Esquecer o leite derramado e começar outra luta. E essa luta não é por novas eleições ou pela revogação do impeachment. Tal como as Diretas, isso é só fazer o papel de massa de manobra para alguns jogos de elites. Energia gasta em catarses inúteis. Como as micaretas de junho de 2013, tão celebradas.

Há uma eleição este ano. Produzir uma chacina nos establishments políticos municipais dos grupos pró-golpe é crucial. Mas pra que isso aconteça é necessário que as manifestações tenham um foco local. É necessário que as candidaturas tenham o objetivo claro de ganhar as eleições e não de “avançar a causa” (a la Gabeira-86, Freixo-12, Freixo-16). É necessário que o território seja tomado, que as máquinas locais sejam confrontadas. Não em todo país – mas nos grandes centros, nas “capitais” das mesorregiões, nas cidades que operam centralidades. Que os esforços sejam “cientificamente” dirigidos aonde há mais fragilidade, aonde doer mais.

A ideia que se pode tomar a Presidência da República para se conduzir as transformações tem que ser enterrada. Não que isso não venha a ser feito, mas é exatamente este tipo de proposta elitista que permite a cooptação da esquerda pelas elites, sua transformação em “Reforma” (afinal, lembremos que na virada dos 80, quando o de vastas sobrancelhas era o Papa, a Reforma era brezhnevista – e hoje é braço auxiliar de uma facção do tucanato). Tem que se entender que, como diz Hardt, esquerda é quem avança o movimento social. Retórica não ganha eleições. Esse é um mito que a rebarba das elites (da qual faço/fazemos parte) quer alimentar, mas “vai achando que é só Playboy que vive em Copacabana”.

Consumada a deposição, o que nos espera? Bem, minha narrativa de cartomante:

– Temer e seu grupo de alegres senhores do PMDB – que foram governistas com FHC, que em certo momento foram governistas com Dilma – irão conduzir uma política não de cinquenta anos em cinco, mas de dez anos em dez meses. Qual seja: todo o processo de pilhagem do estado conduzido entre a demise de Collor e o consulado dos Pedros (Malan e Parente) num ritmo de liquidação da Casa & Vídeo.

– A economia brasileira se encontra numa sinuca. As saídas possíveis envolveriam um nível de heterodoxia impossível com o atual conjunto de instituições que temos. LRF, BACEN, MPU, CGU… letrinhas diversas que, a menos de uma refundação radical (como, por exemplo, um golpe militar), irão bloquear qualquer conjunto de ações que, na minha particular visão de mundo, poderia produzir resultados concretos.

– Como dificilmente se poderá retomar o crescimento – e como mesmo que salva do ponto de vista financeiro o PIG continuará incapaz de produzir votos – o Governo Temer terá baixo suporte e baixa legitimidade. Terá povo nas ruas. Mas ele precisa durar só dez meses, não mais que isso. Por que? Porque a partir de janeiro não só não haverá mais o desgaste de Cunha na presidência da Câmara como Temer poderá ser substituído por alguém que venha a ser eleito pelo Congresso para um mandato-tampão. Esse alguém pode ser, por exemplo, Nelson Jobim, ex-deputado, ex-Supremo, ex-FHC, ex-Lula… Catarse executada, cabeças corruptas cortadas, bode fora da sala.

– Não creio que mexidas radicais em assuntos complexos como a reforma da previdência sejam feitas nesse período. A Câmara não se compõe de suicidas. Medidas babacas no campo social e ambiental, essas sim acontecerão aos montes. Elas vão servir, entre outras coisas, pra possibilitar negócios, induzir salivação de parte das bases reacionárias de perto de um terço da Câmara. Elas farão com que parte da esquerda fique putinha fazendo abaixo-assinados enquanto o essencial se perde, novos paraísos artificiais do mundo do avaaz.

Entender quem deu este Golpe, como e com quais interesses é algo sobre o qual farei algumas hipóteses em alguns outros posts. De São Paulo já falei. Há outros.

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