Moops’ Coup – Parte 2, ou Terceira a Contar de Números

Oh we’re so pretty

Oh so pretty

A vacant

 

And we don’t care

 

(Pretty Vacant, John Joseph Lydon)

 

A maioria dos lugares interessantes que este que cá escreve alcançou o foi por concurso. A admissão numa boa escola privada após o primário numa escola de periferia, as faculdades, o emprego. Concursos daqueles disputados, disputadíssimos. Emprego num dos melhores mandarinatos da República (onde sou criatura periférica e irrelevante passa de duas décadas).

Todos da minha primeira turma de faculdade ficaram certamente entre os 1% melhor colocados daquele Unificado, sendo que eu quase certamente fiquei confortavelmente entre os 0,1%. Não são cortes percentuais relativos à área de especialização: são percentuais dentro do mais de cem mil (na maioria) jovens prestando vestibular, fazendo a mesma prova. Qual seja, todo mundo ali era um bando de babacas (me too) dos quais no mínimo um quarto devem ter sido o melhor aluno de sua escola naquele vestibular. Um bando de babacas com a convicção de estarem sempre certos porque, em geral, eles sempre estiveram certos. Você pode ter esquecido o evento, mas, quatro décadas depois, seus colegas de 2º grau ainda lembram como você resolveu um problema de física no quadro que o professor, enrolado, não conseguia responder. Ao longo dos anos, 5 dos 80 dessa minha turma de básico passaram na prova para o mesmo mandarinato que eu.

Os concursados, em geral, são isso: um bando de babacas com uma enorme capacidade de passar em concursos e de estar certos quando perguntas certas são feitas. Nós temos mérito, mérito claro e comprovado para estarmos onde estamos, fazermos o que fazemos. Isso não dá originalidade, criatividade e, principalmente, SORTE – essas virtudes que dão o “sucesso” às pessoas. Mas confunde-se com frequência mérito com sucesso, e acreditamos que isso, portanto, nos torna especiais. E, de fato, isso nos torna especiais: em responder perguntas rapidamente estando, ao mesmo tempo, na maioria das vezes, certos. Como os talentos dos Ronaldinhos os tornavam excepcionais no manejo da bola. Na verdade, ambos Ronaldinhos foram mais excepcionais do que qualquer concursado jamais será, até porque as prova(çõe)s a que eram submetidos eram constantes e seu desempenho, incontroversamente extraordinário, de fácil, clara medição. Os campos definidos dos esportes, jogos e concursos são dos raros campos em que medidas claras podem ser obtidas. E, mesmo neles, há sorte, há interpretação, há pontos de vista. E brilhante praticante que era Ronaldo, quando fala vê-se claramente que não entende xongas do que se passa em campo.

Não julgue que sou contra o concurso. Muito pelo contrário. Mas with great powers come great responsabilities não quer dizer que grandes encargos gozam com grandes autoridades. Não é o conhecimento verificado que confere mérito – é o atributo do cargo em si, atributo social, politicamente construído. O concurso é apenas forma mais impessoal de fazer isso sem que o acaso ou a discricionariedade ponham alguém aquém do preparo mínimo. Claro que ele carrega em si a ideia de “melhores”, já que os aleatórios envolvidos não são expostos e verbalizados, meros acidentes lamentados na história dos que não passaram ou comicidades laterais nas dos bem sucedidos.

O mundo das pessoas que deram o Golpe (do aparato judicial/prossecutório/policial) e o das pessoas que clamaram pelo Golpe (médicos como o exemplo mais explícito) é composto por pessoas que estudaram muito e cujo monopólio profissional é legitimado por esses conhecimentos tão arduamente obtidos. Eles são bons, eles estão certos: os outros, maus, errados. E quem são os outros? Bem, aí há várias camadas do ressentimento que poderia ser chamado de petit bourgeois (ou “piti de burguesinha” na minha livre tradução). Vamos a uma pequena geologia dessas camadas:

– Há o ressentimento do tipo as uvas estão verdes daqueles que julgam que os funcionários públicos são uns privilegiados que não podem ser demitidos, e que ganham muito mais do que a maioria das pessoas. Isso acontece com frequência com aquelas pessoas cujo desempenho próprio (ou de seus familiares) não foi assim tão abençoado pelo mérito. Qual seja, por: boas notas na escola, ter cursado na faculdade que escolheu (e não na que sobrou) etc. Da trocadora babaca de um ônibus à noite ao ex-aluno mediano que têm seu próprio negócio, há uvas verdes. Esse é um ressentimento na base de muito do discurso de classe média (um termo do qual não gosto muito, mas de fácil entendimento neste contexto) contra o Estado. Ele é o carboidrato do prato de ressentimento.

– Esse ressentimento alimenta um segundo, paradoxal. Pois, se o concursado é o Estado, se é ele a força de trabalho desse mesmo Estado, ele vê essa entidade como algo perverso, algo a ser enquadrado, contado, dividido, posto abaixo. Não a parte do Estado que ele exerce – esta é a mais bem executada/executável, a mais necessária, subdimensionada, mal aparelhada e mal remunerada – mas as restantes, que o limitam, que o comandam, a qual ele não controla, da qual ele não se vê como parte. Porque se onde ele está ele é o onisciente portador de mérito, fora dali ele está imerso num cotidiano de pessoas que carregam um ressentimento não (explicitado) contra ele, pessoa física, mas (verbalizado) contra o conjunto ao qual ele faz parte na pessoa jurídica.

– E aí se junta um terceiro ressentimento, espelho do primeiro. Se a maioria das pessoas vê as uvas verdes do concursado, o abençoado por seu mérito vê como uma puta injustiça o sucesso de criaturas medíocres que – por sorte de nascimento, pela sorte propriamente dita, por seja lá o que for que dê a essas pessoas que lhe são inferiores na escolaridade e/ou na capacidade de ter a resposta certa – são superiores em termos de hierarquia ou riqueza. Esse ressentimento acaba sendo operado com certa ambiguidade: se por um lado tolera-se por vezes na hipocrisia da convivialidade quando os sortudos são do seu campo, ele explode furioso em relação aos demais.

Originalmente o texto começaria abaixo. Mas Hermê – mandarim d’outro Palácio, em Persépolis e não numa satrapia – me fez uma interessante, necessária provocação que deu origem ao destaque desta primeira parte neste segundo texto – e a multiplicação de epígrafes. Grato por me fazer perceber o que é central!

 

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“Qual é a maior maravilha do mundo?”

“Todos os dias os homens vêem as pessoas partirem para a morada de Yama e, ainda assim, aqueles que permanecem procuram viver para sempre. Isto realmente é a maior maravilha.”

(O Mahabharatha)

 

Se lembra quando a gente

Chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber

Que o pra sempre

Sempre acaba

(Renato Manfredini Jr)

 

Policy vs Politics; de Estado vs de Governo. A maioria das pessoas pende a ver valor nas primeiras palavras. Eu, confesso, tremo ao ouvi-las. São elas que estão por trás da crise, são elas que estarão na raiz da destruição do que se realizará com as instituições deste país no porvir onde nos enfiamos.

Em português policy e politics são uma única palavra: política. Nas dez definições desse substantivo feminino (majoritariamente praticado – e abusado – por membros do sexo masculino) no Aurélio, a tradução seria:

Policy:   “Conjunto de objetivos que enformam determinado programa de ação governamental e condicionam a sua execução.”

Politics: “Atividade exercida na disputa dos cargos de governo ou no proselitismo partidário.”

Policy é a salsicha; Politics, sua fabricação. As pessoas querem ver nobreza nas salsichas pois estas estão prontas, pesadas e empacotadas. Se estão lá para usá-las é porque alguém certamente cuidou para que não tivéssemos as inconveniências de fazer de um imundo porco uma massa rosa anódina, com a beleza simétrica e uniforme do que é artificial. Policy é o non olet da condução da Polis.

Policy também é outra coisa. Policy é quando o diálogo cessa. O ato de definir uma policy pode envolver diálogo mas, uma vez estabelecida, a policy limita o diálogo no campo sobre a qual a policy é exercida. Policy é o autoritarismo burocrático, o Graeber do post anterior. Quando as pessoas pedem uma policy elas estão pedindo que a negociação cesse, que as regras sejam claras e policiadas. Isso pode ser muito bom, muito claro, confiável, transparente. Mas uma coisa não é: democrático.

Politics é o campo da conversação. Quando as coisas são decididas por politics é porque elas foram negociadas, se chegou a um acordo por elas. O processo é inerente ao pacto, é o enforcement deste (police é o enforcement de uma policy, politics enforces a si mesma). Neste sentido, democracia-meio se confunde com democracia-fim, aponta para a democracia-“sem fim”, sem ponto de chegada pois os participantes da política são o fim em si mesmos, e não meios.

Engraçado é que usualmente vê-se as coisas trocadas. Eu mesmo via essas coisas trocadas até o momento em que, recém-cevado no anarquismo do Graeber, me vi numa palestra de uma cientista social (mais ou menos) de esquerda que pontificava por “políticas” quando, no fundo, o que ela propunha era a imposição de suas concepções sobre um mundo local diverso, que (já entendia eu naquele momento) deveria ser ouvido, que deveria ser autor de seu destino.

Mesma coisa em relação à oposição entre “de Estado” e “de Governo”. Um burocrata que afirma que sua instituição é “de Estado” está querendo afirmar que não importa o governo que for, ele não pode interferir no que o burocrata faz. A princípio pensamos: sim, as coisas precisam de continuidades maiores que a duração de um governo. Mas tem só um problema: quem define essas continuidades? A figura literal do rei, que no mundo em que os negócios da burguesia passam a conduzir o cotidiano incorpora o papel simbólico do Estado? Qual instituição “de Estado” deve ter imunidade em relação às decisões das instâncias eleitas?

Há uma confusão entre o que é um exercício tecnicamente correto e sem a paralisia que os transtornos de aprendizado e os custos de transação que uma política de espólios causaria, com a autonomia para fazer o que bem entende dos funcionários públicos. O Civil Service serve à Rainha tanto quanto o Primeiro-Ministro. Mas é a este a quem ele, na prática, na quase totalidade das vezes deve obediência – o que não invalida o fato de que Caesar non supra grammaticos. Capisce?

Mas mesmo a língua move, mesmo ela é constante recriada ao ser replicada, e ao fazê-lo de forma errada, mesmo ela evolui. Policy conduzida pelo “de Estado” atende a “I don’t want knowledge, I want certainty”. Politics que (se re)produzem (n)o “de Governo”, rumando ao incerto, ao móvel… ao desenvolvimento… sim, ao Desenvolvimento.

Neste sentido, a busca de autonomia burocrática significa a cristalização do mundo numa utopia, leme travado em direção a uma resolução, a um repouso final. Já a subordinação do burocrático significa a subordinação da condução do mundo ao concreto, ao cotidiano. Idealismo versus empiria, práxis.

Michael Hardt, cuja definição de um governo de esquerda é aquele que avança o movimento social, na sua revisão da experiência dos “occupies”, resgatou uma proposição de Mario Tronti, um teórico do operaismo italiano dos 60-70. A visão tradicional é de que a liderança tem um papel estratégico, de formulação de longo prazo, de criação da visão, enquanto à massa cabe a implementação dessa agenda da liderança. Inversão proposta: a assembleia produz a diretriz, o estratégico, a visão, a agenda; a liderança é estabelecida para conduzir os aspectos táticos. Não cabe aqui agora uma discussão mais ampla das questões relativas a formulação, mas a princípio podemos dizer que tanto Orçamento Participativo das prefeituras do PT em Porto Alegre quanto o PPA Participativo do governo do falecido Marcelo Déda são tentativas de implementar essa inversão. Subversões, portanto, à autonomia dos burocratas e à correção técnica de seus talentos como forma de definir o que há de ser feito.

(Pequena notinha de meio de conversa: fora desse caminho de esquerda, temos o conhecido caminho conservador de representantes que foram votados. Se bons ou maus, não importa, foram votados. Chamemos democracia, chamemos república, não importa. Representantes, votados, Agentes claros do Principal. Pra mim, Samurai, serve. Diria até que If this is paradise / I wish I had a lawn mower)

No ideal platônico da utopia de um mundo perfeito de reis-filósofos, de um poder que faz o Certo, da própria ideia de que existe o Certo… bem, nesse mundo essa desordem do empoderamento da malta, de escutar seu burburinho, sua gramática errada… essa desordem tem que acabar!

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Fosse a revolta apenas a fúria da burocracia de não ver no PT seu rosto no espelho! Não. Há mais. Há outro aspecto de solidariedade – ou seria de identidade – que tem passado ao largo.

Fé.

O galã global dos procuradores é um cara que vive a peregrinar por igrejas batistas a fazer pregações contra a corrupção. A esposa daquele que conduz o auto-de- de Curitiba tem bem menos que seis graus de separação do vice-govenador do Paraná, que pertence aos Orsini dos católicos de SP-PR. Há muito de Opus Dei nos gestos, nos cortes de cabelo, nas posturas de corpo de alguns desses golpistas. Sintomaticamente, o último nome que Dilma apontou para Ministro da Justiça – Dilma cujo partido PT tem como um dos principais movimentos sociais aliados o católico MST – é um ex-adepto da União do Vegetal. Curiosidade ou o fato de que o establishment dos católicos de elite após os anos de Wojtila e Ratzinger foi totalmente tomado pelos grupos conservadores?

Às revoltas anteriormente descritas se soma esta revolta contra um mundo em que todo um conjunto de novos, pervertidos atores, se manifesta. Mundo onde rompeu-se o Dharma de cada um saber o seu lugar, o seu gênero, a sua obediência. O cristianismo conservador é o chibólet não publicamente manifestado (mas ostentado) por este povo com sua primazia da honestidade e da Lei. O reino dos juízes, dos justos.

Na fogueira das vaidades desses nossos Savonarolas as obras-pagãs de nosso desenvolvimento – as empreiteiras, as empresas públicas, o que há de welfare como direito geral (e não como caridade) – irão arder no pregão da avidez por ativos reais dos chineses, das jogadas espertas dos fundos-abutres. Aquilo que esses obreiros pedem a Jove, teremos. Depois, depostas quando não mais interessar à Grande Miami, à Paulista, as carpideiras irão chorar por décadas a fio seus revolucionários tragados pela dinâmica das revoluções. Mas tragados serão, como todos revolucionários, como todos que sonham com um paraíso que pode ser atingido, com o ponto final.

Quando Chico cantava

“Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”

…ele talvez não se desse conta que era o Portugal de Marcelo Caetano, de Oliveira Salazar, o Portugal livre da corrupção onde os grandes bancos e a exploração colonial eram as formas de burguesia e riqueza, onde o paraíso para os não poucos era um lugar concreto: fora do país.

O que me trouxe aqui.

Moops’s Coup – Parte 1

CAPÍTULO XIII – Idéia do despotismo

Quando os selvagens da Luisiana querem ter frutas, cortam a árvore e apanham a fruta. Eis o governo despótico.

(O Espírito das Leis, livro V capítulo 13)*

 

Um juiz do interior derruba as comunicações no país. Não que isso me afetasse pessoalmente: sou um raríssimo ludita sem smartphone – uma restrição conscientemente auto-infringida, como a de não saber dirigir. Mas isso não se aplica à faxineira de onde moro. Ou a quase todo mundo com menos de 70 anos que conheço. Negócios, rotinas familiares – tudo parou, Yggdrasil digital derrubada em nome de Deus e da lei.

“Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país; o problema é o guarda da esquina”, dizia Pedro Aleixo numa sexta-feira 13, dezembro de 68 (pois, país da piada pronta, se a revolução fora no dia dos tolos, o terror viria também num dia adequado). O problema de uma lei assim… que problemas haveria numa lei assim?

Bem essa lei logo de cara pedia um regime em que se “assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, (…), na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, “os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direito e imediato, os graves e urgentes problemas (…)” Vai ver alguém até falou isso no Senado ou na Câmara numa das votações do impeachment. Ou dá para, pegando fragmentos de discurso construir esse texto (fica a sugestão para um não-ludita com tempo e paciência, montar esse video)

Essa lei permitia (a quem era valoroso para empunhá-la) cassar o mandato e os direitos políticos de um parlamentar. Algo excepcional, sim, mas um Ato Institucional é uma atribuição de poderes de exceção. Mas hoje, num ambiente democrático, transparente, uma situação de emergência pode levar a interpretação rara, pioneira, fundadora de precedente: a de que o mandato de um parlamentar possa ser suspenso (por enquanto pelo Supremo). Um parlamentar que atente a ordem, à segurança das instituições. Por mais abominável que Eduardo Cunha possa ser, em que a atribuição do poder de suspender seu mandato difere de uma cassação? Tirado este coelho da cartola, o que o impedirá de se reproduzir, como apraz aos coelhos?

Essa lei permitiu também significativas alterações na legislação eleitoral, como na edição do Pacote de Abril. Entre outras coisas, este estendeu a Lei Falcão, que restringia o horário eleitoral a uma sucessão de fotos e currículos. Algo, como, por exemplo, a resolução do TSE em 1994, que impedia o uso de imagens gravadas fora de estúdio (artigo 29), o que nivelava os demais candidatos contra os abusos daqueles com um bom acervo de imagens externas.

Nada que, no intuito de defender a Constituição, tivesse sido o TSE assim tão original e poderoso. Dois momentos, exuberantes momentos:

Momento 1 – TSE, 2002.

O então companheiro de partido de Dilma Rousseff, Miro Teixeira (que votou “Sim!”), pede ao TSE para examinar se coalizões partidárias estaduais poderiam ser diferentes das nacionais. Claro que não, respondeu o TSE, alterando uma prática que valera para as eleições anteriores. Como consequência, anos depois, onde originalmente se lia:

  • 1º – É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento, devendo seus estatutos estabelecer normas de fidelidade e disciplina partidárias.

Passou a estar escrito na Constituição:

  • 1º É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 52, de 2006)

Sim, a Constituição é detalhada demais. Especialmente quando o judiciário resolve legislar.

Momento 2 – STF, 2007.

O STF resolve realizar uma reforma política decretando que o deputado ou vereador que trocar de partido perderá o mandato. Bem, isso tem só uns probleminhas básicos como o fato de que os deputados são eleitos segundo sua ordem em chapas de coalizões – e não em partidos. Esse pequeno equívoco do judiciário sinaliza por si só a desmedida atenção com valores mais profundos em detrimento da empiria em questão. O importante é que o troca-troca de partidos “é uma prática constitucionalmente ilícita de mudar o resultado eleitoral das urnas fora das urnas”, como disse o Decano.

E tudo isso poderia ser até superbacana não fosse o seguinte fato: em 3 de março de 1988, a Assembleia Nacional Constituinte, que vem a ser o conjunto de cidadãos que escreveu esse documento chamado Constituição de 1988, votou (página 129-132), com 79 votos SIM e 309 votos NÃO (e 15 abstenções) a seguinte proposta:

“Perderá o mandato quem se filiar a partido diverso daquele pelo qual se apresentou a sufrágio, salvo em caso de extinção do anterior.”

Levando-se em conta que para se aprovar a proposta eram necessários 280 votos, digamos que a Assembleia rejeitou de reforma cabal e explícita a ideia que o STF, como se a única forma de jurisprudência que conhecesse fosse a de seus próprios órgãos, resolveu interpretar depois. Mesmo Nelson Jobim votou NÃO.

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Antes de seguir em frente, uma pequena, reducionista, simplificada visão da sociedade brasileira. Um pequeno cavalo esférico e sem atrito de forma que possamos entender o movimento. Uma fábula.

Vamos pensar o país dividido em duas partes: as que contam (a Capital e o Capital; o Centro, o dinâmico) e aquelas que não servem pra nada (os grotões e o grotesco, o latifúndio improdutivo e seu espelho assentado). Na década de 80 fazíamos uma piada sobre onde passaria a linha Elba Ramalho. Reza a lenda que numa excursão dela pelo Sulmaravilha um empresário teria levantado da plateia após a música Nordeste Independente e dito “Topo! Quanto é o cheque que eu faço agora?”. Havia quem dissesse 10 quilômetros acima de Montes Claros. Havia outros um pouco menos detalhistas. Mas a ideia de que há um Brasil nobre, dinâmico, que não é desenvolvido falta pouco mas logo logo logo dominaremos a flor vermelha e nos tornaremos iguais ao mundo de onde nossos avós emigraram (Confederação, Europa, Japão) e que só não chegamos lá ainda por conta dessa gente indiaolente / corrupta/ ignorante, gente da terra… bem essa ideia está presente naquele pensamento social brasileiro criticado pelo Jessé n’A Tolice, está em Victor Nunes Leal (que possivelmente escapa do tacape do Jessé por ser ciência política – ou quem sabe por trazer uma contradição mais complicada para o discurso do Jessé: mas essa é outra história ao qual volto depois).

Vamos supor uma segunda divisão. De um lado, o Bacharel, o portador da Verdade (ainda hoje, majoritariamente jurídica – e aqui eu incluo os economistas, que, como o povo do direito, não entendem essa 2ª tese do Latour. Poderíamos usar alternativamente profissionais liberais ou professional class, o que até seria mais preciso em relação a este Golpe com apoio dos médicos, mas que não têm a mesma ressonância histórica). O Bacharel traz seu conhecimento de fora. A ele se contrapõe a prática ignorante dos que cá estão, sejam esses coronéis, comerciantes, trabalhadores. Como moldura na borda desse quadro temos o saco de batatas sob os coronéis de um lado e a burguesia para quem parte dos profissionais trabalha por outro.

Relembrando, esse é um desenho sem atritos, reentrâncias e detalhes, uma rua do Recife onde se ergueram prédios. E nesse desenho três grupos: os bacharéis e os trabalhadores no Centro, os coronéis (com seu saco de batatas) nos Grotões. Ou: a UDN, o PTB e o PSD, no desenho do país mais simples (talvez porque já ao longe) de seis décadas atrás.

Antes do Ato Institucional nº 1, na UDN, as vivandeiras dos quartéis (bacharéis) insuflavam (seus gêmeos) militares pela derrubada da união do atávico com a malta (PSD e PTB). Dado o golpe, o PSD prontamente aderiu. Já os marmiteiros… silenciaram-nos a força e o crescimento na época do Milagre. Até que gradualmente…

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Mas voltemos. Voltemos ao hoje. Voltemos ao Golpe.

Quando imaginamos um golpe, imaginamos blindados, fuzis, militares fardados. Tais atributos, no mundo tão recentemente próximo dos Estados Nacionais, são a própria definição de Estado, de Nacional, de monopólio do Leviatã sobre o lombo dos súditos, de língua enquanto dialeto com exército. Lovely plumage etc e tal mas não mais, definitivamente não mais. Num mundo totalmente colonizado… perdão, globalizado, os mesmos instrumentos que os exércitos dispõe estão no arsenal das forças policiais. Conquanto, no caso destas últimas eles são de fato utilizados. Em raros lugares ainda o exército (tipo Tailândia), mas na maioria dos casos no abraço armado da lei.

Police are, essentially, bureaucrats with weapons” nos explica Graeber (neste ensaio, que no livrinho rosa ganhou um twist final interessante). Pensamos violência como sendo algo perpetrado, esporadicamente, desregradamente, só por músculos e armas. Por vezes isto até acontece. Mas elas são a ponta do iceberg: a burocracia e suas regras são violência institucionalizada, violência que se faz presente não só num sentido “simbólico”.

Então, ao invés de pensarmos num Golpe no formato clássico:

um conjunto de militares (com menos unidade e comando do que parecem ter para quem está do outro lado) que insuflado por vivandeiras toma o poder; que expurga (primeiro como Marcos 9:40; depois como Mateus 12:30); que toma gosto pelo poder; que abusa dele até o ponto em que mesmo as vivandeiras resolvem pedir o imóvel de volta.

Pensemos um formato alternativo:

Um conjunto de instituições de força (com mais unidade e comando do que parecem ter para quem está do outro lado); que insuflado por vivandeiras toma o poder; que expurga… será a sequência a mesma?

O Judiciário, seus braços armados do aparato policial e da procuradoria – nominalmente do executivo, mas crescentemente autônomos – gradualmente assumiram o papel da resolução cotidiana de conflitos, da determinação de como o executivo deve conduzir-se (exemplo rápido: liminares sobre remédios), do que as leis na prática querem dizer. Ao invés de Exército, Marinha, Aeronáutica (com apoio gradual das polícias estaduais), como no golpe de 64, pensemos em Judiciário, Polícia Federal, Ministério Público (com apoio das polícias estaduais). Ao invés de olharmos para algo construído com uma hierarquia explícita, pensemos que essas instituições operam de forma mais fluida, rizomática, contemporânea às formas de organização do social contemporâneas. Ao invés de olhar para algo que acontece num instante exato do tempo (um eclipse) pensamos em algum evento lento (um trânsito de Plutão) acontecendo… O Golpe vem sendo gradualmente dado há anos. A oportunidade de consolidação surgiu só agora. Ela precisava de um governo que abandonasse o PSD – perdão, o PMDB – à própria sorte.

Entendida então a premissa deste post de que as instituições de força (leia-se, aqueles Agentes legitimados a praticar o arbítrio e a violência) tomaram de fato o poder e que isto – e não o PMDB – é o Golpe? Então avancemos. Que ideologias congregam os golpistas? Quem são as vivandeiras de hoje? Quais as próximas etapas de consolidação do Golpe? O que fazer?

 

*(Livro V, capítulo 13: será a insidiosa junção entre black blocks e o lulopetismo?)