Moops’ Coup – Parte 3, Phishers (Out of the Blue)

This is religion and Jesus Christ

This is religion, cheaply priced

(John Joseph Lydon)

Naquele tempo havia uma coisa chamada Religião.

Ela explicava o funcionamento do mundo, a origem de todas as coisas.

Ela dizia que todos os homens (por vezes até mulheres e crianças!) de um lugar estavam irmanados (embora alguns mais iguais que os outros) numa origem.

Ela dizia porque eles nasceram, porque sofriam, porque morriam.

Ela dizia quem podia casar com quem, como e por quanto tempo.

Ela determinava de quem era o frango que atravessou a rua.

Ela explicava porque o frango atravessou a rua!

E tudo isso com muito visual, muito som, muita emoção, muito encantamento. A maior história de todos os tempos (e a do tempo em si!) sustentando o maior espetáculo da terra. Quem pode pagar, quem não pode pagar, todos com acesso ao espetáculo. Quem pode pagar, quem não pode pagar, todos, mesmo assim, pagando, podendo ou não. Afinal, não é só maldade então, deixar um Deus tão triste?

 

They give you this

But you pay for that

 

Se alguém pode se aproveitar de você, alguém se aproveitará. Isso, em resumo, é o phishing equilibrium que Bob e George descrevem em seu delicioso livrinho. Tomem o equilibrium ali como uma piada: Bob e George são dois velhinhos debochados, ambos com o Prêmio do Sveriges Riksbank de Economia em memória de Alfred Nobel, o homem criativo da destruição. George recebeu o seu na companhia do Fama – o que é um escárnio ao que me consta só comparável ao da dobradinha Myrdal-Hayek.

Há no livro muitos, divertidos exemplos. Mas, na minha mui modesta opinião, falta o maior de todos.

Hoje há a Ciência, há ciências. Há física, há cosmologia; há biologia, há psicologia; há história, arqueologia, paleontologia. Há o Estado-Nação. Há a OMC, há o FMI. Há GPS, há a WWW. Há um código civil que regula a vida dos homens (mulheres, crianças e empresas – a noção de pessoa é cada vez mais ampla). Sobrou o quê? O encantamento, o espetáculo… e o pagamento.

Extinto o papel que fazia da religião algo institucionalmente útil, ela faz o que realmente? Sim, porque a menos que você seja um fiel realmente convicto – o que significa ou gueto ou internação – rola uma hipocrisia básica na forma como isso é aplicado, vivido. Você acredita… mas acredita de uma forma assim meio particular… em qual deus mesmo? Você vive a religião como ato pessoal, interno, deus fala com você… mas, e fora? Em quais responsabilidades, punições, que partes do livro você considera alegóricas, o quanto isso é truthiness?

Liberdade religiosa é uma invenção imperial. Se as pessoas que fazem uma determinada polity (outra palavrinha ruim de traduzir – “comunidade organizada politicamente” diz o Michaelis. Fiquemos daqui por diante com polity mesmo, mais curto. Também não enveredemos pelo velho Carl) são provenientes de diferentes origens e interagem mantendo suas identidades (e, por vezes, fidelidades hierárquicas e territoriais) originais, a liberdade religiosa pode ser uma forma mais rápida de se construir/evoluir essa polity do que a conversão/construção de uma nova identidade, de um novo conjunto de leis para regular suas interações cotidianas. Roma, Al Andalus e “America”; Jerusalém e Amsterdam.

Mas isso era antes. Se Westfalia, o acordo, reiterou o cuius regio, eius religio, com um proviso para alguma liberdade pública regulada de prática de dissidências cristãs. Westfália, o sistema, criou uma situação em que os códigos civis crescentemente se descolaram da estrutura religiosa e ganham uma conotação nacional, laica, estatal.

Na fragmentária “America” do século XIX, assim como os negócios e as invenções, as denominações explodiram. E como aquele era um mundo sem príncipes a determinar deus, todo tipo de interpretação se tornou possível, toda a criatividade que só um mercado livre e sem regulação permite produziu seu resultado. E, dizem Bob e George, se há espaço para algo predar seus instintos mais básicos – seu medo do desejo, do desconhecido e da morte – um phishing equilibrium se estabelecerá.

Sim, porque se a “America” é um lugar construído por pessoas de diferentes fés, diferentes origens, ao chegar ao porto a Estátua já deixa claro que são os valores da trindade burguesa fixados na Constituição que conduzem o cotidiano daquela terra. À religião fica o que está fora da lei: aquilo que não tem implicação prática.

Sobra apenas a identidade, o pessoal, o entre quatro paredes – mesmo que em público.

E aqui vai a outra grande utilidade desse mecanismo (aparentemente) inócuo de produção de identidade: ele mascara relações de classe. No velho mundo a religião (e suas instituições remanescentes) foi uma das formas de se estruturar uma força política em oposição ao partido social-democrata, à organização do proletariado urbano como força política numa polity que opera a um grau de separação do sufrágio universal. Nos EUA isso rolou de forma um pouco diferente. Lá, em alguns momentos, ela funcionou de forma poliárquica, como por exemplo na luta pela proibição do álcool (que trouxe por tabela o voto feminino). Noutros, como na estratégia republicana do mundo pós-nixoniano, como mecanismo pavloviano. Mas, na maior parte das vezes, religião foi um negócio operando de forma (quase) desregulada.

Snake oil é outra expressão que não tem tradução imediata. Se cá tanto Conselheiro como os monges do Contestado foram devidamente cauterizados à bala pelo Estado, na “America” coisas como William Miller puderam florescer numa boa. E, tal como outros tantos limões, espremeram a concorrência construindo um novo modelo de negócio, modelo o qual penetrou pelos espaços desestruturados pelo/do capitalismo no/do Global South.

Por que no sul global? Porque nos demais espaços (a exceção da “America”) os meios de telecomunicação são pesadamente regulados e, em muitos casos, propriedade pública. Não dá para se entender a propagação dessas igrejas sem se entender o “Century of the Self” (busquem e vejam), o mundo da propaganda no século XX.

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Aqui faço uma pequena quebra, uma janelinha.

Há um argumento, que gente boa como o Jessé e o Mike Davis, para citar dois exemplos, acredita, de que as igrejas pentecostais no terceiro mundo são um fator positivo. Sendo bastante sacana e reducionista, essas igrejas permitiram uma conversão adicional (à do pagão/papista à salvação em jesus): do lumpen ao (prole/preca)riado. E isso seria positivo, progressista. Na minha modesta, fuckoutiana, opinião, eles estão errados, profundamente errados.

Primeiro: quem é o lumpenproletariado? Thénardier é a coisa mais próxima da descrição de Marx. Prá quem não leu o Brumário, prá quem não leu Hugo… ao menos viu o filme com Wolverine no papel do herói burguês Jan Valjean? Pois prá quem viu: o personagem do Sasha Baron-Cohen. O que é esse lumpen? É a classe de pessoas que, no mundo urbano, consegue sobreviver fora das relações entre a propriedade e o assalariamento. Ao mesmo tempo excluídos, ao mesmo tempo predadores, eles dominam o know-how de como operar em um território específico: de como desaparecer nele, de como se alimentar numa selva que mata aqueles que são externos e expostos aos elementos. Entender um território, um ecossistema, não é uma coisa trivial. E se isso vale pra natureza, não pensem que não vale para o ambiente humanamente construído.

A provocação que faço é que para produzir o trabalhador voluntário é necessário que ele ou nasça como um vernae do ventre de uma civitas proletária, ou que ele seja um desterritorializado incapaz de sobreviver fora das senzalas do capital. Se ele é livre, se ele sobrevive, raramente ele dará esse sofisticado salto em busca de ser um cidadão da civitas.

O que essa versão de religião faz nesses lugares é descolar as pessoas de suas comunidades. Do futebol, do uso cotidiano/ritual de álcool, das relações afetivas (e carnais) que acontecem em formatos pagãos (e violentos, em boa parte). Faz isso pra que suas almas não fujam das suas senzalas simbólicas, não sejam devoradas pela liberdade da selva; faz isso porque dinheiro não é jogado fora, mas dado um propósito mais digno (um win-win benéfico ao crente e ao Senhor, este na figura de seu ungido Agente do Principal Senhor). Qual seja: a religião produz uma pessoa (na maioria das vezes mulheres e não homens) impermeável, avessa aos mores locais. A religião produz um ser humano desterritorializado.

E como o apocalipse ainda está pra vir, a red queen da conversão opera, permanente. Um vírus, uma estrutura auto-replicante. Meme, proferiu o Guru.

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A fourth wall break inside a fourth wall break? That’s like, sixteen walls. Antes de seguir adiante, duas cositas só para não deixar certa confusão no ar.

Não tome o eventual leitor o texto anterior como uma apologia ao lumpen. Muito pelo contrário. O malandro não está do lado do trabalhador. Mas o malandro faz parte do conjunto das pessoas na ordem urbana, das estratégias individuais de um mundo individual, burguês, complexo, parte da cidade dériveável. Não pode ser extinto, não deve ser extinto. Não é motivo de celebração, não é projeto coletivo de liberdade. Entendo o que motiva Jessé, mas, ao mesmo tempo, vejo como uma forma análoga a uma expulsão, como uma forma de escravidão. Algo ambíguo, profundamente ambíguo.

Um segundo ponto é quanto à religião em si. Eu reconheço a centralidade que a fé no Senhor/nos Orixás/na iluminação de Buda/no poder curativo do Johrei tem para uma porção de pessoas muito inteligentes e bacanas que me são próximas e que eu admiro e amo. Sim, as experiências são diversas, as pessoas as têm como elementos construtivos pra lá de importantes de seus valores, de sua razão de ser no mundo, da capacidade de dormir um bom sono, de ser justo. E se entendo e respeito seus rituais –  e até os pratique eventualmente – tenho a mesma sensação de erro com que eles condescendentemente olham para pessoas movidas por outras fés.

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E aqui transitamos do primeiro grupo de vivandeiras – a bancada evangélica e o aparato extrativo de pastores e igrejas – para o segundo grupo de vivandeiras: os meios de comunicação. Sobre os quais não há muito que se falar. É gritante. Vá na página inicial de qualquer “blog sujo” e você verá uma menção à Globo, ao PIG, às barbaridades conduzidas por esses concessionários do espectro eletromagnético.

Como as igrejas, eles tem uma liberdade de atuação neste canto do Ocidente que é rara nos demais pedaços do mundo. Como as igrejas, eles vivem de produzir sentido, emoção, sentimentos de identidade que se traduzem em objetos que contém custos de propaganda. E, sem eles, as igrejas não teriam se propagado com tanta facilidade. E sem as igrejas é bem capaz que boa parte deles (tirando o ponto G do PIG, a Globo) já tivesse quebrado. Porque se aos phishers do cigarro o espectro foi negado pela lei, se os do álcool sofrem restrições crescentes, aos do senhor nada pode ser impedido. É um tipo de propaganda sobre o qual nenhuma restrição pode ser afixada, sem CONAR, sem Código de Defesa do Consumidor.

Ambos, igrejas e idiot box, vivem de tentar controlar/estimular ao máximo as eye-balls, as horas, os bolsos, os desejos, os medos. Ambas têm nesse mundo ainda mais desregulado e fragmentário da Internet um inimigo. Ambas transferem aos seus performers a capacidade de ser identificados e, portanto, votados. Crivellas e Russomanos (se bem que a legislação nunca exigiu uma temporária suspensão de pastores de suas funções).

Mas se a religião opera num espaço de “save-age competition”, a imprensa, ao contrário, é o monopólio, o Canal, o limite estreito de espaços públicos rivais: o espectro eletromagnético, a banca de jornal na calçada. Garantir e conquistar essa posse requer a capacidade de obter os monopólios legais de concessões e redes de distribuição. É/Requer Capital. E Capital… bem isso é faixa do outro lado…

(continua)

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Ultimato/Fronda

Ultimato/Fronda

 

A government for hire and a combat site

Left of west and coming in a hurry

With the furies breathing down your neck

Team by team reporters baffled, trumped, tethered cropped

(Not Nostradamus)

 

Uma pequena interrupção na discussão do Golpe.

Sexta após a votação do Brexit, ficamos eu e Hermê trocando uns e-mails. Eu, why so serious?, celebrando a vitória do Leave; Hermê, sério, lamentando e temendo o que lhe parece ser uma vitória das trevas conservadoras. Segunda seguinte recebi um vídeo, muito, muito interessante, enviado por Jorginho, O Carvoeiro. Nele Mark Blyth, um gajo realmente brilhante e interessante, discute o Brexit. Em parte, na linha que eu discuti com Hermê. Vejam o Vídeo completo (mas depois de ler este post). Mais um par de coisas legais, nessa discussão, pra não ser prolixo: esse interfluidity, esse do Will Davies.

Mas aqui eu vou para um par de argumentos que ainda não vi utilizados. Não é um exame exaustivo, sequer detalhado: apenas um barraco construído, umas sementes lançadas para demarcar que cheguei neste terreno antes. E como sói acontecer neste blog, as coisas cá só tem piada quando há teoria envolvida, devolvida, mélangeada. E, neste caso, com uma pitada de Variações.

 

Primeiro Argumento: um Jogo do Ultimato

O Jogo do Ultimato é um experimento psicológico no qual é dado a um dos jogadores o direito de decidir o quanto de uma quantia será dado a outro jogador, ficando ele com o restante. Você dirá: mas isso é um Jogo do Ditador. Não: o Jogo do Ultimato tem o adendo adicional que, se o outro jogador recusar a quantia, nenhum dos dois recebe nada.

Como explica Richard Thaler (pra quem não lembra é aquele senhor simpático ao lado da Selena Gomez no cassino em The Big Short), um “economista” dará o mínimo possível, já que com isso ele maximiza o dinheiro que fica com ele. Por outro lado, um “economista” do outro lado aceitará qualquer coisa, porque qualquer coisa é melhor que nada (pois entre atores racionais num mercado o engate sempre se realizará). Já um ser humano, que, como vocês devem saber, é um primata, fruto dos constraints evolucionários de um primata, tem umas certas idiossincrasias. Yes Virginia: you Rawls come a long way, baby. Portanto, quando seres humanos jogam esse jogo, se eles acham que o outro jogador se comportou como um “economista” ele simplesmente prefere sair com a mão deserta a se contentar com “melhor que nada”. Irracionais primatas!

Na frente do eleitor dois botões para apertar, somente dois. No primeiro está escrito TINA; no segundo, F*!. Não, não há o roteiro de comercial em TV a cabo where mammals and computers live together, um mundo de possibilidades idílicas de singulares pessoas sem idade, sem gênero, sem história, todas potencialmente predispostas e dotadas a montar um unicórnio. Isso não está lá (pelo menos para quem é/foi/será assalariado. A esperança foi encontrada antes deles por alguém, nalgum universo paralelo (Terra 616?), más cá, cá não há quem venha nos restituir a glória do Império Britânico, os empregos (e com eles, a dignidade) perdidos no mundo industrial do Ocidente (mesmo entre nós), a utopia palpável de algum distrito vermelho do planeta sobre o qual a fantasia concreta de outra realidade possa ser construída. O sonho de Ford, onde todos os carros são modelos T(hatcher) pretos se concretizou: os partidos votáveis e a condução do mundo viraram variantes do mesmo austero modelo.

Bem, tem outro, solitário, botão: F-expletivo-exclamação. É irracional. Sim, é irracional. Mas nós não chegamos até aqui como criaturas racionais. Esse é um equívoco de “economistas”, de tecnocratas, do aparato que pensa que está jogando o jogo do Ditador mas, pra sua perplexidade, descobre-se jogando Ultimato. O eleitorado cansou e, no mundo dos flexians, argumentos anti-democracia que rosnavam à margem (FHC gostou!) agora são discutidos a céu aberto. E isso puxa para o argumento abaixo.

 

Segundo Argumento: a Fronda

Sendo bastante sucinto e reducionista, a Fronda foi a revolta da aristocracia francesa contra um estado absoluto que, sob os olhos daquelaa nobreza territorial periférica rebelada, precede/se alimenta de/fomenta o mundo burguês que advirá.

Se há uma tendência de se avaliar coisas como Trump, Le Pen e Farage como sendo um aproveitamento das condições de exclusão de uma pobre massa ignorante e ressentida de pessoas excluídas pela globalização, imvho há um equívoco básico nisso: essa massa não se mobiliza – por si só. Essa massa sequer vota!

Por trás de Trump não está o proletariado-reduzido-ao-lumpesinato dos fly-over states. Por trás de Trump está a burguesia desses locais: os donos de revendedoras de automóveis, de corretoras de imóveis, de lojas, de escritórios de serviços. A destruição que a globalização provocou nesses locais não se restringe aos mais ferrados: mesmo suas crescentemente desestruturadas, des-rotary-lionisadas elites sofrem com isso. Mesmo nos lugares onde o controle do capital local parece mais consolidado os imperativos da nova economia globalizada invadem.

Trump é um sintoma da revolta da burguesia – leia-se, proprietários de negócios – contra um mundo que, de fato, não é mais propriamente capitalista. Mundo em que pessoas que detém mandato sobre other people’s money operam em benefício de sua Paris, de seus bolsos. E se os “camponeses” também foram abandonados por deus e pelo rei, seus forcados passam a estar alinhados ao dos patrões.

Se assumirmos a hipótese de que estamos não mais no capitalismo, mas no ancien régime de algum futuro modo de produção, essa revolta rima com o passado. Ser o fim dessa energia (o mundo do petróleo), ser o fim de mais um dia particular da história, é o que resta a essas classes conduzidas a travar uma luta de classes secundária, obsoleta, num lugar inglório. Dono de cassinos, Trump entende muito bem disso.

 

O convite da globalização, contudo, persiste.