Ultimato/Fronda

Ultimato/Fronda

 

A government for hire and a combat site

Left of west and coming in a hurry

With the furies breathing down your neck

Team by team reporters baffled, trumped, tethered cropped

(Not Nostradamus)

 

Uma pequena interrupção na discussão do Golpe.

Sexta após a votação do Brexit, ficamos eu e Hermê trocando uns e-mails. Eu, why so serious?, celebrando a vitória do Leave; Hermê, sério, lamentando e temendo o que lhe parece ser uma vitória das trevas conservadoras. Segunda seguinte recebi um vídeo, muito, muito interessante, enviado por Jorginho, O Carvoeiro. Nele Mark Blyth, um gajo realmente brilhante e interessante, discute o Brexit. Em parte, na linha que eu discuti com Hermê. Vejam o Vídeo completo (mas depois de ler este post). Mais um par de coisas legais, nessa discussão, pra não ser prolixo: esse interfluidity, esse do Will Davies.

Mas aqui eu vou para um par de argumentos que ainda não vi utilizados. Não é um exame exaustivo, sequer detalhado: apenas um barraco construído, umas sementes lançadas para demarcar que cheguei neste terreno antes. E como sói acontecer neste blog, as coisas cá só tem piada quando há teoria envolvida, devolvida, mélangeada. E, neste caso, com uma pitada de Variações.

 

Primeiro Argumento: um Jogo do Ultimato

O Jogo do Ultimato é um experimento psicológico no qual é dado a um dos jogadores o direito de decidir o quanto de uma quantia será dado a outro jogador, ficando ele com o restante. Você dirá: mas isso é um Jogo do Ditador. Não: o Jogo do Ultimato tem o adendo adicional que, se o outro jogador recusar a quantia, nenhum dos dois recebe nada.

Como explica Richard Thaler (pra quem não lembra é aquele senhor simpático ao lado da Selena Gomez no cassino em The Big Short), um “economista” dará o mínimo possível, já que com isso ele maximiza o dinheiro que fica com ele. Por outro lado, um “economista” do outro lado aceitará qualquer coisa, porque qualquer coisa é melhor que nada (pois entre atores racionais num mercado o engate sempre se realizará). Já um ser humano, que, como vocês devem saber, é um primata, fruto dos constraints evolucionários de um primata, tem umas certas idiossincrasias. Yes Virginia: you Rawls come a long way, baby. Portanto, quando seres humanos jogam esse jogo, se eles acham que o outro jogador se comportou como um “economista” ele simplesmente prefere sair com a mão deserta a se contentar com “melhor que nada”. Irracionais primatas!

Na frente do eleitor dois botões para apertar, somente dois. No primeiro está escrito TINA; no segundo, F*!. Não, não há o roteiro de comercial em TV a cabo where mammals and computers live together, um mundo de possibilidades idílicas de singulares pessoas sem idade, sem gênero, sem história, todas potencialmente predispostas e dotadas a montar um unicórnio. Isso não está lá (pelo menos para quem é/foi/será assalariado. A esperança foi encontrada antes deles por alguém, nalgum universo paralelo (Terra 616?), más cá, cá não há quem venha nos restituir a glória do Império Britânico, os empregos (e com eles, a dignidade) perdidos no mundo industrial do Ocidente (mesmo entre nós), a utopia palpável de algum distrito vermelho do planeta sobre o qual a fantasia concreta de outra realidade possa ser construída. O sonho de Ford, onde todos os carros são modelos T(hatcher) pretos se concretizou: os partidos votáveis e a condução do mundo viraram variantes do mesmo austero modelo.

Bem, tem outro, solitário, botão: F-expletivo-exclamação. É irracional. Sim, é irracional. Mas nós não chegamos até aqui como criaturas racionais. Esse é um equívoco de “economistas”, de tecnocratas, do aparato que pensa que está jogando o jogo do Ditador mas, pra sua perplexidade, descobre-se jogando Ultimato. O eleitorado cansou e, no mundo dos flexians, argumentos anti-democracia que rosnavam à margem (FHC gostou!) agora são discutidos a céu aberto. E isso puxa para o argumento abaixo.

 

Segundo Argumento: a Fronda

Sendo bastante sucinto e reducionista, a Fronda foi a revolta da aristocracia francesa contra um estado absoluto que, sob os olhos daquelaa nobreza territorial periférica rebelada, precede/se alimenta de/fomenta o mundo burguês que advirá.

Se há uma tendência de se avaliar coisas como Trump, Le Pen e Farage como sendo um aproveitamento das condições de exclusão de uma pobre massa ignorante e ressentida de pessoas excluídas pela globalização, imvho há um equívoco básico nisso: essa massa não se mobiliza – por si só. Essa massa sequer vota!

Por trás de Trump não está o proletariado-reduzido-ao-lumpesinato dos fly-over states. Por trás de Trump está a burguesia desses locais: os donos de revendedoras de automóveis, de corretoras de imóveis, de lojas, de escritórios de serviços. A destruição que a globalização provocou nesses locais não se restringe aos mais ferrados: mesmo suas crescentemente desestruturadas, des-rotary-lionisadas elites sofrem com isso. Mesmo nos lugares onde o controle do capital local parece mais consolidado os imperativos da nova economia globalizada invadem.

Trump é um sintoma da revolta da burguesia – leia-se, proprietários de negócios – contra um mundo que, de fato, não é mais propriamente capitalista. Mundo em que pessoas que detém mandato sobre other people’s money operam em benefício de sua Paris, de seus bolsos. E se os “camponeses” também foram abandonados por deus e pelo rei, seus forcados passam a estar alinhados ao dos patrões.

Se assumirmos a hipótese de que estamos não mais no capitalismo, mas no ancien régime de algum futuro modo de produção, essa revolta rima com o passado. Ser o fim dessa energia (o mundo do petróleo), ser o fim de mais um dia particular da história, é o que resta a essas classes conduzidas a travar uma luta de classes secundária, obsoleta, num lugar inglório. Dono de cassinos, Trump entende muito bem disso.

 

O convite da globalização, contudo, persiste.

 

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2 comentários sobre “Ultimato/Fronda

  1. Não querendo ser chato, mas já sendo… esse primeiro argumento não é muito original.

    O Tyler Cowen, pra ficar num exemplo, já falou isso: “‘voting Leave’ […] was the one lever the English were given for sending a message to their politicians.”

    http://marginalrevolution.com/marginalrevolution/2016/06/why-brexit-happened-the-lens-of-japan.html

    Já sobre o segundo argumento, mais do que classistas, os fenômenos Trump, Brexit, e, até mesmo, Bolsonaro, são informacionais. A informação que a maioria das pessoas consome hoje é extremamente unidimensional, seja porque elas escolhem assim, ou porque algum algoritmo escolheu por elas.

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  2. Marcos, o argumento que eu faço é entender esse processo como um jogo do ultimato, e não de uma sinalização às elites – que é um argumento que muita gente além do Cowen utilizou. Em que esse twist torna o argumento mais interessante? Taleb me diz que a razão de uma decisão deve ser uma só, so: porque torna explícita a questão distributiva, a desigualdade de apropriação (ausência de fairness nas decisões dos processos de globalização conduzidos nos países centrais, coisa bem colocada pelo Blyth), fazendo isso nos termos de um dos jogos mais estudados pelo povo de behavioral economics.

    Aliás, faz tempo que o Cowen não fala nesse jogo:
    http://marginalrevolution.com/?s=ultimatum+game

    (Divertido ver ele também usando Pistols – cheguei antes nessa!: http://marginalrevolution.com/marginalrevolution/2016/07/when-will-the-united-kingdom-invoke-article-50.html)

    Quanto argumento informacional, por mais que reconheça epistemic closure como um problema realmente sério (até desencantar o Dish nas suas diversas encarnações foi um dos meus blogs diários) do mundo após WWW, há realmente uma questão de classe na base de Trump. Ela pode ficar mascarada por outras coisas, mas continua sendo uma questão de classe. E que há classe na “America”, há. Como escreveu alguém realmente grande:
    http://time.com/3848474/kareem-abdul-jabbar-baltimore-is-just-the-beginning/

    “Yes, violent acts tend to have a communicative element. But this is true of any other form of human action as well. It strikes me that what is really important about violence is that it is perhaps the only form of human action that holds out even in the possibility of having social effects without being communicative.” (Graeber, Dead zones of the imagination – On violence, bureaucracy, and interpretive labor)

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