A Marcha dos Patinhos e Outras Cenas Recentes

Can’t remember anything at all

(Nick Cave)

Jorginho, o Carvoeiro, quantas saudades. Umas coisas pra registro, coisas que venho falando tem alguns meses, coisas que acabaram de acontecer.

A Marcha dos Patinhos

Na base do mundo há um grande espetáculo natural. Lá, nas mais inóspitas condições, os pinguins-imperador sofrem o excruciante vento antártico, as distâncias crescentes de um inverno que afasta constantemente a costa, um desafio hercúleo que se repete para que a espécie possa sobreviver, para que comida seja trazida aos novos pinguins que virão.

Se formos mais ao norte – e isso ainda é bastante ao sul! – chegaremos a um caminho mais comprido, espremido entre os Andes e o Pacífico. Nesta terra, não mais pinguins fazendo a viagem para se alimentar, a si e a seu empreendimento com o futuro. Pensemos em outra ave igualmente dada a nadar e também desajeitada ao se deslocar pelo chão estabilizado, firme e duradouro.

No andar da carruagem, na República do Chile os patinhos irão marchar em algum momento. Vindos do Sul – de Santa Catarina, de Rio Grande, do Vale dos Pinhais, mas, na sua mais famosa subespécie, o Avenida Paulista em ameaça de extinção – irão passar entre a desaparecida demanda da Petrobrás e a burocrática indisposição do BNDES. Farão seu barulho. Se não sair algum coelho da cartola, só porque tornaram-se patinhos não quer dizer que tenham virado otários. Moral da história, baixinho: nada como um dia após o outro, vamos ver o que acontecerá amanhã.

Revaselinização de Ativos

Um Asset. Visualize um asset. Um asset está lançado numa carteira. Ele pode sair dali e ir para no colo doutra carteira. Asset do Itaú, asset do BTG, ass at do Eike. Alguém pode lançar mão de um asset como garantia. Um asset é uma entidade financeira, uma entidade que se converte em dinheiro.

Quando se fala num ativo, assim, em português, visualiza-se outra coisa. Um ativo é a encarnação de um empresário em sua potência, se confunde com ele. Cada X do Eike é um ativo, em cada X Eike é um ativo. Mas, quando esse ativo está distressed, sob o peso da recuperação judicial, entalado até o pescoço como diriam em francês; quando um investidor externo olha com cobiça sobre algo em desequilíbrio, vulnerável, que não consegue fechar um balanço e fazer um quatro, e o faz acompanhado do olhar complacente de um banqueiro de investimento, aí sim, esse ativo está pronto pra ser tomado, possuído. Mas não pense que é fácil assim sair se entrando em um ativo, tomando controle dele. Não não não! Um ativo desses precisa ser revaselinado para que um investidor estrangeiro possa entrar sem maiores atritos, da forma mais indolor possível para ambas as 3 partes: quem cede, quem entra e quem intermedia.

No caso, interpreto como a dor principal que o investidor externo possa ter seja a de entrar num ativo superestressado e convidativo, transformá-lo em um asset no seu balanço, para, meses depois, tomar uma desvalorização do real pela cara e ver seu asset (que é um valor fixo em real expresso em dólar) despencar de um mês para o outro, perder 20% ou mais. A melhor forma de evitar esse problema é ter um financiamento descolado do câmbio em termos camaradas.

Quem ganha nessa história? O cara que desincorporou de seu ativo que agora virou asset? O gringo em cuja carteira está assentado agora o asset? Não, quem mais ganha é o cara do bar onde a ladies’ night ocorre. O cara do Leblon que intermediou a situação.

Carta aos Caralhocas

Como disse um dia o Claude, “Um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”. A “Carta aos Cariocas” (compromisso com o rio: coragem para mudar) é isso: a passagem da selvageria utópica a decadência da terceira viadagem sem ter conhecido um governo de esquerda de fato.

Tirando o “Integrado, de forma equilibrada, por mulheres e homens.”, pergunto: o que ali não poderia estar num compromisso do Bolsonaro? Em que a versão de saias da dupla Nelson Barbosa associado a Joaquim Levy não seria uma decepção?

Amigo, há que entender que coxinha não é posição política. Coxinha é classe social. No frigir dos ovos, a classe acaba triunfando sobre o alinhamento político das pessoas. Não no varejo, mas no atacado. “A person is smart. People are dumb, panicky dangerous animals and you know it.

Vendo Marcelo Frouxo num debate na BandNews, onde ele e Crivella (a quantidade de botox na testa deste é tal que ele parece um Thunderbird) pareciam dois Geraldos sob efeito de Frontal, eu fiquei me fazendo a pergunta que faço desde o final de 2014: por que não o Tarcísio? Ao contrário do Frouxo, que se quisesse ser prefeito teria concorrido em Niterói na eleição anterior, onde de fato acredito haveria uma chance dele ganhar (btw: votei nele pra deputado em 2014 e não me arrependo), Tarcísio tem o tipo de garra que um sindicalista tem. O argumento de que o Freixo é mais conhecido… bem, o cara foi o terceiro colocado na cidade na eleição pra governador!

A pergunta que o PSOL tem que se fazer é se eles são um partido que busca o poder, ou como o PT fluminense o foi na maior parte do tempo (o que o levou a não ganhar nenhuma eleição pra cidade ou pro governo), como diria Baudrillard, vão sair por aí cantando “Meu amor não vai haver tristeza / Nada além de fim de tarde a mais / Mas depois as luzes todas acesas …”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios