A Marcha dos Patinhos e Outras Cenas Recentes

Can’t remember anything at all

(Nick Cave)

Jorginho, o Carvoeiro, quantas saudades. Umas coisas pra registro, coisas que venho falando tem alguns meses, coisas que acabaram de acontecer.

A Marcha dos Patinhos

Na base do mundo há um grande espetáculo natural. Lá, nas mais inóspitas condições, os pinguins-imperador sofrem o excruciante vento antártico, as distâncias crescentes de um inverno que afasta constantemente a costa, um desafio hercúleo que se repete para que a espécie possa sobreviver, para que comida seja trazida aos novos pinguins que virão.

Se formos mais ao norte – e isso ainda é bastante ao sul! – chegaremos a um caminho mais comprido, espremido entre os Andes e o Pacífico. Nesta terra, não mais pinguins fazendo a viagem para se alimentar, a si e a seu empreendimento com o futuro. Pensemos em outra ave igualmente dada a nadar e também desajeitada ao se deslocar pelo chão estabilizado, firme e duradouro.

No andar da carruagem, na República do Chile os patinhos irão marchar em algum momento. Vindos do Sul – de Santa Catarina, de Rio Grande, do Vale dos Pinhais, mas, na sua mais famosa subespécie, o Avenida Paulista em ameaça de extinção – irão passar entre a desaparecida demanda da Petrobrás e a burocrática indisposição do BNDES. Farão seu barulho. Se não sair algum coelho da cartola, só porque tornaram-se patinhos não quer dizer que tenham virado otários. Moral da história, baixinho: nada como um dia após o outro, vamos ver o que acontecerá amanhã.

Revaselinização de Ativos

Um Asset. Visualize um asset. Um asset está lançado numa carteira. Ele pode sair dali e ir para no colo doutra carteira. Asset do Itaú, asset do BTG, ass at do Eike. Alguém pode lançar mão de um asset como garantia. Um asset é uma entidade financeira, uma entidade que se converte em dinheiro.

Quando se fala num ativo, assim, em português, visualiza-se outra coisa. Um ativo é a encarnação de um empresário em sua potência, se confunde com ele. Cada X do Eike é um ativo, em cada X Eike é um ativo. Mas, quando esse ativo está distressed, sob o peso da recuperação judicial, entalado até o pescoço como diriam em francês; quando um investidor externo olha com cobiça sobre algo em desequilíbrio, vulnerável, que não consegue fechar um balanço e fazer um quatro, e o faz acompanhado do olhar complacente de um banqueiro de investimento, aí sim, esse ativo está pronto pra ser tomado, possuído. Mas não pense que é fácil assim sair se entrando em um ativo, tomando controle dele. Não não não! Um ativo desses precisa ser revaselinado para que um investidor estrangeiro possa entrar sem maiores atritos, da forma mais indolor possível para ambas as 3 partes: quem cede, quem entra e quem intermedia.

No caso, interpreto como a dor principal que o investidor externo possa ter seja a de entrar num ativo superestressado e convidativo, transformá-lo em um asset no seu balanço, para, meses depois, tomar uma desvalorização do real pela cara e ver seu asset (que é um valor fixo em real expresso em dólar) despencar de um mês para o outro, perder 20% ou mais. A melhor forma de evitar esse problema é ter um financiamento descolado do câmbio em termos camaradas.

Quem ganha nessa história? O cara que desincorporou de seu ativo que agora virou asset? O gringo em cuja carteira está assentado agora o asset? Não, quem mais ganha é o cara do bar onde a ladies’ night ocorre. O cara do Leblon que intermediou a situação.

Carta aos Caralhocas

Como disse um dia o Claude, “Um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”. A “Carta aos Cariocas” (compromisso com o rio: coragem para mudar) é isso: a passagem da selvageria utópica a decadência da terceira viadagem sem ter conhecido um governo de esquerda de fato.

Tirando o “Integrado, de forma equilibrada, por mulheres e homens.”, pergunto: o que ali não poderia estar num compromisso do Bolsonaro? Em que a versão de saias da dupla Nelson Barbosa associado a Joaquim Levy não seria uma decepção?

Amigo, há que entender que coxinha não é posição política. Coxinha é classe social. No frigir dos ovos, a classe acaba triunfando sobre o alinhamento político das pessoas. Não no varejo, mas no atacado. “A person is smart. People are dumb, panicky dangerous animals and you know it.

Vendo Marcelo Frouxo num debate na BandNews, onde ele e Crivella (a quantidade de botox na testa deste é tal que ele parece um Thunderbird) pareciam dois Geraldos sob efeito de Frontal, eu fiquei me fazendo a pergunta que faço desde o final de 2014: por que não o Tarcísio? Ao contrário do Frouxo, que se quisesse ser prefeito teria concorrido em Niterói na eleição anterior, onde de fato acredito haveria uma chance dele ganhar (btw: votei nele pra deputado em 2014 e não me arrependo), Tarcísio tem o tipo de garra que um sindicalista tem. O argumento de que o Freixo é mais conhecido… bem, o cara foi o terceiro colocado na cidade na eleição pra governador!

A pergunta que o PSOL tem que se fazer é se eles são um partido que busca o poder, ou como o PT fluminense o foi na maior parte do tempo (o que o levou a não ganhar nenhuma eleição pra cidade ou pro governo), como diria Baudrillard, vão sair por aí cantando “Meu amor não vai haver tristeza / Nada além de fim de tarde a mais / Mas depois as luzes todas acesas …”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Moops’ Coup – Parte 5, MCMXXXVII

1º Amigo (bebendo “cognac” e soda, debaixo das árvores, num terraço, à beira de água)

Camarada, por estes calores do Estio, que embotam a ponta da sagacidade, repousemos do áspero estudo da Realidade humana… Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ruínas do Idealismo…

Façamos fantasia!…

2º Amigo

Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sábias e amáveis Alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…

(Eça)

O processo é mais rápido que minha necessidade de férias. Portanto, salto duas partes (3;2 e 4) que ainda não estão prontas. Por sorte a realidade antecede a arte, e o que era apenas uma obscenidade na imaginação deste esquerdista pragmático hoje é um exuberante caso político.

Se tomarmos a pílula azul, o impeachment acontece.

Retirada a possibilidade do retorno de Dilma, o Fora Temer vira uma avalanche como a campanha das Diretas. Ninguém que dependa de voto quer Temer por perto. Uma vez presidente, ele será o maior cabo eleitoral da oposição na eleição municipal que se aproxima. Esqueçam as pesquisas: vivemos hoje num mundo em que a velocidade de mobilização é maior, mundo que independe do monopolizado canal.

Temer não sobrevive até o Carnaval, abandonado que será por todos os lados. Por mais que os tucanos (Serra, FHC) queiram aderir, o bom senso triunfará (como quando Collor. Então Covas, agora Geraldo o fusível moral). Uma eleição indireta virá com um Castelo Branco do mundo jurídico tomando o Executivo. A Redentora, como farsa.

Dilma vira uma mártir menor, uma criatura de medíocre irrelevância como é hoje FHC. Os partidos de esquerda, o movimento social e a juventude são gradualmente criminalizados, impedidos de atuar por um aparato jurídico que credencia quem pode ser candidato, quem pode falar. 64 em compotas no poder, parafraseando Brizola.

 

Se tomarmos a pílula vermelha… bem, creio que essa sequência de eventos abaixo foge ao que é escrito/esperado/dito por aí.

Lula e Renan fecharam um acordo. Dilma não é condenada. Dilma “reassume” (sob tutela, com Lula na Casa Civil – algum tipo de lobotomia para mantê-la quieta) e imediatamente convoca o Conselho da República e o Conselho de Defesa. O estado de sítio é decretado prontamente.

Um general de 4 estrelas é nomeado para a chefia da Polícia Federal, e esta e o MPU sofrem intervenção imediata (bem como os meios de comunicação de massa associados, aqueles envolvidos nos vazamentos). Os policiais/procuradores golpistas são presos por conspiração.

O Congresso aprova uma anistia para os detentores de mandato que eventualmente receberam recursos de caixa dois. Os réus confessos que se beneficiaram de delações premiadas tem seu benefício revogado. Os poderes do judiciário são reduzidos a partir daí. O eleitorado que julgue os políticos por meio do voto. O prestígio de Lula, o fiador perante a massa da Federação, garante que o mínimo de violência será necessário. Vargas-37, em suma.

 

Não há pílula cor-de-rosa

onde Dilma, a mulher, a honesta, volta à sua presidência e o mundo segue, bonitinho.

Não há pílula cor-de-rosa

onde o conjunto de funcionários “de estado” passa a fazer um “o certo” democrático, que atenda ao desenvolvimento nacional (seja lá que porra que esse delírio coxinha de um mundo sem política seja).

Não há pílula cor-de-rosa

onde faça-se uma nova eleição, faça-se de conta que nada aconteceu.

Não há pílula cor-de-rosa

que nos dê a paz.

 

Quando concebi esse cenário vermelho jamais imaginaria vê-lo aplicado noutro lugar. E eis que vem aquela mal executada tentativa de golpe na Turquia (como disse wildemente um amigo, sofrer um golpe de estado é um infortúnio; vencê-lo em 24h parece descuido). E eis que os golpistas tem uma relação com o Gülen, cujo movimento opera no mesmo nicho e nos mesmos ideais americanos de nossos jovens concursados do mundo jurídico. E o Sultão (lá a bandeira também é vermelha, também tem uma estrela no meio, mas ela não está sozinha) não vacila. You never let a serious crisis go to waste. And what I mean by that it’s an opportunity to do things you think you could not do before (a versão mais recente dessa frase, do Zé Dirceu de Obama). Como Vargas, 1937.

Moops’ Coup – Parte 3, Phishers (Out of the Blue)

This is religion and Jesus Christ

This is religion, cheaply priced

(John Joseph Lydon)

Naquele tempo havia uma coisa chamada Religião.

Ela explicava o funcionamento do mundo, a origem de todas as coisas.

Ela dizia que todos os homens (por vezes até mulheres e crianças!) de um lugar estavam irmanados (embora alguns mais iguais que os outros) numa origem.

Ela dizia porque eles nasceram, porque sofriam, porque morriam.

Ela dizia quem podia casar com quem, como e por quanto tempo.

Ela determinava de quem era o frango que atravessou a rua.

Ela explicava porque o frango atravessou a rua!

E tudo isso com muito visual, muito som, muita emoção, muito encantamento. A maior história de todos os tempos (e a do tempo em si!) sustentando o maior espetáculo da terra. Quem pode pagar, quem não pode pagar, todos com acesso ao espetáculo. Quem pode pagar, quem não pode pagar, todos, mesmo assim, pagando, podendo ou não. Afinal, não é só maldade então, deixar um Deus tão triste?

 

They give you this

But you pay for that

 

Se alguém pode se aproveitar de você, alguém se aproveitará. Isso, em resumo, é o phishing equilibrium que Bob e George descrevem em seu delicioso livrinho. Tomem o equilibrium ali como uma piada: Bob e George são dois velhinhos debochados, ambos com o Prêmio do Sveriges Riksbank de Economia em memória de Alfred Nobel, o homem criativo da destruição. George recebeu o seu na companhia do Fama – o que é um escárnio ao que me consta só comparável ao da dobradinha Myrdal-Hayek.

Há no livro muitos, divertidos exemplos. Mas, na minha mui modesta opinião, falta o maior de todos.

Hoje há a Ciência, há ciências. Há física, há cosmologia; há biologia, há psicologia; há história, arqueologia, paleontologia. Há o Estado-Nação. Há a OMC, há o FMI. Há GPS, há a WWW. Há um código civil que regula a vida dos homens (mulheres, crianças e empresas – a noção de pessoa é cada vez mais ampla). Sobrou o quê? O encantamento, o espetáculo… e o pagamento.

Extinto o papel que fazia da religião algo institucionalmente útil, ela faz o que realmente? Sim, porque a menos que você seja um fiel realmente convicto – o que significa ou gueto ou internação – rola uma hipocrisia básica na forma como isso é aplicado, vivido. Você acredita… mas acredita de uma forma assim meio particular… em qual deus mesmo? Você vive a religião como ato pessoal, interno, deus fala com você… mas, e fora? Em quais responsabilidades, punições, que partes do livro você considera alegóricas, o quanto isso é truthiness?

Liberdade religiosa é uma invenção imperial. Se as pessoas que fazem uma determinada polity (outra palavrinha ruim de traduzir – “comunidade organizada politicamente” diz o Michaelis. Fiquemos daqui por diante com polity mesmo, mais curto. Também não enveredemos pelo velho Carl) são provenientes de diferentes origens e interagem mantendo suas identidades (e, por vezes, fidelidades hierárquicas e territoriais) originais, a liberdade religiosa pode ser uma forma mais rápida de se construir/evoluir essa polity do que a conversão/construção de uma nova identidade, de um novo conjunto de leis para regular suas interações cotidianas. Roma, Al Andalus e “America”; Jerusalém e Amsterdam.

Mas isso era antes. Se Westfalia, o acordo, reiterou o cuius regio, eius religio, com um proviso para alguma liberdade pública regulada de prática de dissidências cristãs. Westfália, o sistema, criou uma situação em que os códigos civis crescentemente se descolaram da estrutura religiosa e ganham uma conotação nacional, laica, estatal.

Na fragmentária “America” do século XIX, assim como os negócios e as invenções, as denominações explodiram. E como aquele era um mundo sem príncipes a determinar deus, todo tipo de interpretação se tornou possível, toda a criatividade que só um mercado livre e sem regulação permite produziu seu resultado. E, dizem Bob e George, se há espaço para algo predar seus instintos mais básicos – seu medo do desejo, do desconhecido e da morte – um phishing equilibrium se estabelecerá.

Sim, porque se a “America” é um lugar construído por pessoas de diferentes fés, diferentes origens, ao chegar ao porto a Estátua já deixa claro que são os valores da trindade burguesa fixados na Constituição que conduzem o cotidiano daquela terra. À religião fica o que está fora da lei: aquilo que não tem implicação prática.

Sobra apenas a identidade, o pessoal, o entre quatro paredes – mesmo que em público.

E aqui vai a outra grande utilidade desse mecanismo (aparentemente) inócuo de produção de identidade: ele mascara relações de classe. No velho mundo a religião (e suas instituições remanescentes) foi uma das formas de se estruturar uma força política em oposição ao partido social-democrata, à organização do proletariado urbano como força política numa polity que opera a um grau de separação do sufrágio universal. Nos EUA isso rolou de forma um pouco diferente. Lá, em alguns momentos, ela funcionou de forma poliárquica, como por exemplo na luta pela proibição do álcool (que trouxe por tabela o voto feminino). Noutros, como na estratégia republicana do mundo pós-nixoniano, como mecanismo pavloviano. Mas, na maior parte das vezes, religião foi um negócio operando de forma (quase) desregulada.

Snake oil é outra expressão que não tem tradução imediata. Se cá tanto Conselheiro como os monges do Contestado foram devidamente cauterizados à bala pelo Estado, na “America” coisas como William Miller puderam florescer numa boa. E, tal como outros tantos limões, espremeram a concorrência construindo um novo modelo de negócio, modelo o qual penetrou pelos espaços desestruturados pelo/do capitalismo no/do Global South.

Por que no sul global? Porque nos demais espaços (a exceção da “America”) os meios de telecomunicação são pesadamente regulados e, em muitos casos, propriedade pública. Não dá para se entender a propagação dessas igrejas sem se entender o “Century of the Self” (busquem e vejam), o mundo da propaganda no século XX.

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Aqui faço uma pequena quebra, uma janelinha.

Há um argumento, que gente boa como o Jessé e o Mike Davis, para citar dois exemplos, acredita, de que as igrejas pentecostais no terceiro mundo são um fator positivo. Sendo bastante sacana e reducionista, essas igrejas permitiram uma conversão adicional (à do pagão/papista à salvação em jesus): do lumpen ao (prole/preca)riado. E isso seria positivo, progressista. Na minha modesta, fuckoutiana, opinião, eles estão errados, profundamente errados.

Primeiro: quem é o lumpenproletariado? Thénardier é a coisa mais próxima da descrição de Marx. Prá quem não leu o Brumário, prá quem não leu Hugo… ao menos viu o filme com Wolverine no papel do herói burguês Jan Valjean? Pois prá quem viu: o personagem do Sasha Baron-Cohen. O que é esse lumpen? É a classe de pessoas que, no mundo urbano, consegue sobreviver fora das relações entre a propriedade e o assalariamento. Ao mesmo tempo excluídos, ao mesmo tempo predadores, eles dominam o know-how de como operar em um território específico: de como desaparecer nele, de como se alimentar numa selva que mata aqueles que são externos e expostos aos elementos. Entender um território, um ecossistema, não é uma coisa trivial. E se isso vale pra natureza, não pensem que não vale para o ambiente humanamente construído.

A provocação que faço é que para produzir o trabalhador voluntário é necessário que ele ou nasça como um vernae do ventre de uma civitas proletária, ou que ele seja um desterritorializado incapaz de sobreviver fora das senzalas do capital. Se ele é livre, se ele sobrevive, raramente ele dará esse sofisticado salto em busca de ser um cidadão da civitas.

O que essa versão de religião faz nesses lugares é descolar as pessoas de suas comunidades. Do futebol, do uso cotidiano/ritual de álcool, das relações afetivas (e carnais) que acontecem em formatos pagãos (e violentos, em boa parte). Faz isso pra que suas almas não fujam das suas senzalas simbólicas, não sejam devoradas pela liberdade da selva; faz isso porque dinheiro não é jogado fora, mas dado um propósito mais digno (um win-win benéfico ao crente e ao Senhor, este na figura de seu ungido Agente do Principal Senhor). Qual seja: a religião produz uma pessoa (na maioria das vezes mulheres e não homens) impermeável, avessa aos mores locais. A religião produz um ser humano desterritorializado.

E como o apocalipse ainda está pra vir, a red queen da conversão opera, permanente. Um vírus, uma estrutura auto-replicante. Meme, proferiu o Guru.

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A fourth wall break inside a fourth wall break? That’s like, sixteen walls. Antes de seguir adiante, duas cositas só para não deixar certa confusão no ar.

Não tome o eventual leitor o texto anterior como uma apologia ao lumpen. Muito pelo contrário. O malandro não está do lado do trabalhador. Mas o malandro faz parte do conjunto das pessoas na ordem urbana, das estratégias individuais de um mundo individual, burguês, complexo, parte da cidade dériveável. Não pode ser extinto, não deve ser extinto. Não é motivo de celebração, não é projeto coletivo de liberdade. Entendo o que motiva Jessé, mas, ao mesmo tempo, vejo como uma forma análoga a uma expulsão, como uma forma de escravidão. Algo ambíguo, profundamente ambíguo.

Um segundo ponto é quanto à religião em si. Eu reconheço a centralidade que a fé no Senhor/nos Orixás/na iluminação de Buda/no poder curativo do Johrei tem para uma porção de pessoas muito inteligentes e bacanas que me são próximas e que eu admiro e amo. Sim, as experiências são diversas, as pessoas as têm como elementos construtivos pra lá de importantes de seus valores, de sua razão de ser no mundo, da capacidade de dormir um bom sono, de ser justo. E se entendo e respeito seus rituais –  e até os pratique eventualmente – tenho a mesma sensação de erro com que eles condescendentemente olham para pessoas movidas por outras fés.

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E aqui transitamos do primeiro grupo de vivandeiras – a bancada evangélica e o aparato extrativo de pastores e igrejas – para o segundo grupo de vivandeiras: os meios de comunicação. Sobre os quais não há muito que se falar. É gritante. Vá na página inicial de qualquer “blog sujo” e você verá uma menção à Globo, ao PIG, às barbaridades conduzidas por esses concessionários do espectro eletromagnético.

Como as igrejas, eles tem uma liberdade de atuação neste canto do Ocidente que é rara nos demais pedaços do mundo. Como as igrejas, eles vivem de produzir sentido, emoção, sentimentos de identidade que se traduzem em objetos que contém custos de propaganda. E, sem eles, as igrejas não teriam se propagado com tanta facilidade. E sem as igrejas é bem capaz que boa parte deles (tirando o ponto G do PIG, a Globo) já tivesse quebrado. Porque se aos phishers do cigarro o espectro foi negado pela lei, se os do álcool sofrem restrições crescentes, aos do senhor nada pode ser impedido. É um tipo de propaganda sobre o qual nenhuma restrição pode ser afixada, sem CONAR, sem Código de Defesa do Consumidor.

Ambos, igrejas e idiot box, vivem de tentar controlar/estimular ao máximo as eye-balls, as horas, os bolsos, os desejos, os medos. Ambas têm nesse mundo ainda mais desregulado e fragmentário da Internet um inimigo. Ambas transferem aos seus performers a capacidade de ser identificados e, portanto, votados. Crivellas e Russomanos (se bem que a legislação nunca exigiu uma temporária suspensão de pastores de suas funções).

Mas se a religião opera num espaço de “save-age competition”, a imprensa, ao contrário, é o monopólio, o Canal, o limite estreito de espaços públicos rivais: o espectro eletromagnético, a banca de jornal na calçada. Garantir e conquistar essa posse requer a capacidade de obter os monopólios legais de concessões e redes de distribuição. É/Requer Capital. E Capital… bem isso é faixa do outro lado…

(continua)

Ultimato/Fronda

Ultimato/Fronda

 

A government for hire and a combat site

Left of west and coming in a hurry

With the furies breathing down your neck

Team by team reporters baffled, trumped, tethered cropped

(Not Nostradamus)

 

Uma pequena interrupção na discussão do Golpe.

Sexta após a votação do Brexit, ficamos eu e Hermê trocando uns e-mails. Eu, why so serious?, celebrando a vitória do Leave; Hermê, sério, lamentando e temendo o que lhe parece ser uma vitória das trevas conservadoras. Segunda seguinte recebi um vídeo, muito, muito interessante, enviado por Jorginho, O Carvoeiro. Nele Mark Blyth, um gajo realmente brilhante e interessante, discute o Brexit. Em parte, na linha que eu discuti com Hermê. Vejam o Vídeo completo (mas depois de ler este post). Mais um par de coisas legais, nessa discussão, pra não ser prolixo: esse interfluidity, esse do Will Davies.

Mas aqui eu vou para um par de argumentos que ainda não vi utilizados. Não é um exame exaustivo, sequer detalhado: apenas um barraco construído, umas sementes lançadas para demarcar que cheguei neste terreno antes. E como sói acontecer neste blog, as coisas cá só tem piada quando há teoria envolvida, devolvida, mélangeada. E, neste caso, com uma pitada de Variações.

 

Primeiro Argumento: um Jogo do Ultimato

O Jogo do Ultimato é um experimento psicológico no qual é dado a um dos jogadores o direito de decidir o quanto de uma quantia será dado a outro jogador, ficando ele com o restante. Você dirá: mas isso é um Jogo do Ditador. Não: o Jogo do Ultimato tem o adendo adicional que, se o outro jogador recusar a quantia, nenhum dos dois recebe nada.

Como explica Richard Thaler (pra quem não lembra é aquele senhor simpático ao lado da Selena Gomez no cassino em The Big Short), um “economista” dará o mínimo possível, já que com isso ele maximiza o dinheiro que fica com ele. Por outro lado, um “economista” do outro lado aceitará qualquer coisa, porque qualquer coisa é melhor que nada (pois entre atores racionais num mercado o engate sempre se realizará). Já um ser humano, que, como vocês devem saber, é um primata, fruto dos constraints evolucionários de um primata, tem umas certas idiossincrasias. Yes Virginia: you Rawls come a long way, baby. Portanto, quando seres humanos jogam esse jogo, se eles acham que o outro jogador se comportou como um “economista” ele simplesmente prefere sair com a mão deserta a se contentar com “melhor que nada”. Irracionais primatas!

Na frente do eleitor dois botões para apertar, somente dois. No primeiro está escrito TINA; no segundo, F*!. Não, não há o roteiro de comercial em TV a cabo where mammals and computers live together, um mundo de possibilidades idílicas de singulares pessoas sem idade, sem gênero, sem história, todas potencialmente predispostas e dotadas a montar um unicórnio. Isso não está lá (pelo menos para quem é/foi/será assalariado. A esperança foi encontrada antes deles por alguém, nalgum universo paralelo (Terra 616?), más cá, cá não há quem venha nos restituir a glória do Império Britânico, os empregos (e com eles, a dignidade) perdidos no mundo industrial do Ocidente (mesmo entre nós), a utopia palpável de algum distrito vermelho do planeta sobre o qual a fantasia concreta de outra realidade possa ser construída. O sonho de Ford, onde todos os carros são modelos T(hatcher) pretos se concretizou: os partidos votáveis e a condução do mundo viraram variantes do mesmo austero modelo.

Bem, tem outro, solitário, botão: F-expletivo-exclamação. É irracional. Sim, é irracional. Mas nós não chegamos até aqui como criaturas racionais. Esse é um equívoco de “economistas”, de tecnocratas, do aparato que pensa que está jogando o jogo do Ditador mas, pra sua perplexidade, descobre-se jogando Ultimato. O eleitorado cansou e, no mundo dos flexians, argumentos anti-democracia que rosnavam à margem (FHC gostou!) agora são discutidos a céu aberto. E isso puxa para o argumento abaixo.

 

Segundo Argumento: a Fronda

Sendo bastante sucinto e reducionista, a Fronda foi a revolta da aristocracia francesa contra um estado absoluto que, sob os olhos daquelaa nobreza territorial periférica rebelada, precede/se alimenta de/fomenta o mundo burguês que advirá.

Se há uma tendência de se avaliar coisas como Trump, Le Pen e Farage como sendo um aproveitamento das condições de exclusão de uma pobre massa ignorante e ressentida de pessoas excluídas pela globalização, imvho há um equívoco básico nisso: essa massa não se mobiliza – por si só. Essa massa sequer vota!

Por trás de Trump não está o proletariado-reduzido-ao-lumpesinato dos fly-over states. Por trás de Trump está a burguesia desses locais: os donos de revendedoras de automóveis, de corretoras de imóveis, de lojas, de escritórios de serviços. A destruição que a globalização provocou nesses locais não se restringe aos mais ferrados: mesmo suas crescentemente desestruturadas, des-rotary-lionisadas elites sofrem com isso. Mesmo nos lugares onde o controle do capital local parece mais consolidado os imperativos da nova economia globalizada invadem.

Trump é um sintoma da revolta da burguesia – leia-se, proprietários de negócios – contra um mundo que, de fato, não é mais propriamente capitalista. Mundo em que pessoas que detém mandato sobre other people’s money operam em benefício de sua Paris, de seus bolsos. E se os “camponeses” também foram abandonados por deus e pelo rei, seus forcados passam a estar alinhados ao dos patrões.

Se assumirmos a hipótese de que estamos não mais no capitalismo, mas no ancien régime de algum futuro modo de produção, essa revolta rima com o passado. Ser o fim dessa energia (o mundo do petróleo), ser o fim de mais um dia particular da história, é o que resta a essas classes conduzidas a travar uma luta de classes secundária, obsoleta, num lugar inglório. Dono de cassinos, Trump entende muito bem disso.

 

O convite da globalização, contudo, persiste.

 

Moops’ Coup – Parte 2, ou Terceira a Contar de Números

Oh we’re so pretty

Oh so pretty

A vacant

 

And we don’t care

 

(Pretty Vacant, John Joseph Lydon)

 

A maioria dos lugares interessantes que este que cá escreve alcançou o foi por concurso. A admissão numa boa escola privada após o primário numa escola de periferia, as faculdades, o emprego. Concursos daqueles disputados, disputadíssimos. Emprego num dos melhores mandarinatos da República (onde sou criatura periférica e irrelevante passa de duas décadas).

Todos da minha primeira turma de faculdade ficaram certamente entre os 1% melhor colocados daquele Unificado, sendo que eu quase certamente fiquei confortavelmente entre os 0,1%. Não são cortes percentuais relativos à área de especialização: são percentuais dentro do mais de cem mil (na maioria) jovens prestando vestibular, fazendo a mesma prova. Qual seja, todo mundo ali era um bando de babacas (me too) dos quais no mínimo um quarto devem ter sido o melhor aluno de sua escola naquele vestibular. Um bando de babacas com a convicção de estarem sempre certos porque, em geral, eles sempre estiveram certos. Você pode ter esquecido o evento, mas, quatro décadas depois, seus colegas de 2º grau ainda lembram como você resolveu um problema de física no quadro que o professor, enrolado, não conseguia responder. Ao longo dos anos, 5 dos 80 dessa minha turma de básico passaram na prova para o mesmo mandarinato que eu.

Os concursados, em geral, são isso: um bando de babacas com uma enorme capacidade de passar em concursos e de estar certos quando perguntas certas são feitas. Nós temos mérito, mérito claro e comprovado para estarmos onde estamos, fazermos o que fazemos. Isso não dá originalidade, criatividade e, principalmente, SORTE – essas virtudes que dão o “sucesso” às pessoas. Mas confunde-se com frequência mérito com sucesso, e acreditamos que isso, portanto, nos torna especiais. E, de fato, isso nos torna especiais: em responder perguntas rapidamente estando, ao mesmo tempo, na maioria das vezes, certos. Como os talentos dos Ronaldinhos os tornavam excepcionais no manejo da bola. Na verdade, ambos Ronaldinhos foram mais excepcionais do que qualquer concursado jamais será, até porque as prova(çõe)s a que eram submetidos eram constantes e seu desempenho, incontroversamente extraordinário, de fácil, clara medição. Os campos definidos dos esportes, jogos e concursos são dos raros campos em que medidas claras podem ser obtidas. E, mesmo neles, há sorte, há interpretação, há pontos de vista. E brilhante praticante que era Ronaldo, quando fala vê-se claramente que não entende xongas do que se passa em campo.

Não julgue que sou contra o concurso. Muito pelo contrário. Mas with great powers come great responsabilities não quer dizer que grandes encargos gozam com grandes autoridades. Não é o conhecimento verificado que confere mérito – é o atributo do cargo em si, atributo social, politicamente construído. O concurso é apenas forma mais impessoal de fazer isso sem que o acaso ou a discricionariedade ponham alguém aquém do preparo mínimo. Claro que ele carrega em si a ideia de “melhores”, já que os aleatórios envolvidos não são expostos e verbalizados, meros acidentes lamentados na história dos que não passaram ou comicidades laterais nas dos bem sucedidos.

O mundo das pessoas que deram o Golpe (do aparato judicial/prossecutório/policial) e o das pessoas que clamaram pelo Golpe (médicos como o exemplo mais explícito) é composto por pessoas que estudaram muito e cujo monopólio profissional é legitimado por esses conhecimentos tão arduamente obtidos. Eles são bons, eles estão certos: os outros, maus, errados. E quem são os outros? Bem, aí há várias camadas do ressentimento que poderia ser chamado de petit bourgeois (ou “piti de burguesinha” na minha livre tradução). Vamos a uma pequena geologia dessas camadas:

– Há o ressentimento do tipo as uvas estão verdes daqueles que julgam que os funcionários públicos são uns privilegiados que não podem ser demitidos, e que ganham muito mais do que a maioria das pessoas. Isso acontece com frequência com aquelas pessoas cujo desempenho próprio (ou de seus familiares) não foi assim tão abençoado pelo mérito. Qual seja, por: boas notas na escola, ter cursado na faculdade que escolheu (e não na que sobrou) etc. Da trocadora babaca de um ônibus à noite ao ex-aluno mediano que têm seu próprio negócio, há uvas verdes. Esse é um ressentimento na base de muito do discurso de classe média (um termo do qual não gosto muito, mas de fácil entendimento neste contexto) contra o Estado. Ele é o carboidrato do prato de ressentimento.

– Esse ressentimento alimenta um segundo, paradoxal. Pois, se o concursado é o Estado, se é ele a força de trabalho desse mesmo Estado, ele vê essa entidade como algo perverso, algo a ser enquadrado, contado, dividido, posto abaixo. Não a parte do Estado que ele exerce – esta é a mais bem executada/executável, a mais necessária, subdimensionada, mal aparelhada e mal remunerada – mas as restantes, que o limitam, que o comandam, a qual ele não controla, da qual ele não se vê como parte. Porque se onde ele está ele é o onisciente portador de mérito, fora dali ele está imerso num cotidiano de pessoas que carregam um ressentimento não (explicitado) contra ele, pessoa física, mas (verbalizado) contra o conjunto ao qual ele faz parte na pessoa jurídica.

– E aí se junta um terceiro ressentimento, espelho do primeiro. Se a maioria das pessoas vê as uvas verdes do concursado, o abençoado por seu mérito vê como uma puta injustiça o sucesso de criaturas medíocres que – por sorte de nascimento, pela sorte propriamente dita, por seja lá o que for que dê a essas pessoas que lhe são inferiores na escolaridade e/ou na capacidade de ter a resposta certa – são superiores em termos de hierarquia ou riqueza. Esse ressentimento acaba sendo operado com certa ambiguidade: se por um lado tolera-se por vezes na hipocrisia da convivialidade quando os sortudos são do seu campo, ele explode furioso em relação aos demais.

Originalmente o texto começaria abaixo. Mas Hermê – mandarim d’outro Palácio, em Persépolis e não numa satrapia – me fez uma interessante, necessária provocação que deu origem ao destaque desta primeira parte neste segundo texto – e a multiplicação de epígrafes. Grato por me fazer perceber o que é central!

 

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“Qual é a maior maravilha do mundo?”

“Todos os dias os homens vêem as pessoas partirem para a morada de Yama e, ainda assim, aqueles que permanecem procuram viver para sempre. Isto realmente é a maior maravilha.”

(O Mahabharatha)

 

Se lembra quando a gente

Chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber

Que o pra sempre

Sempre acaba

(Renato Manfredini Jr)

 

Policy vs Politics; de Estado vs de Governo. A maioria das pessoas pende a ver valor nas primeiras palavras. Eu, confesso, tremo ao ouvi-las. São elas que estão por trás da crise, são elas que estarão na raiz da destruição do que se realizará com as instituições deste país no porvir onde nos enfiamos.

Em português policy e politics são uma única palavra: política. Nas dez definições desse substantivo feminino (majoritariamente praticado – e abusado – por membros do sexo masculino) no Aurélio, a tradução seria:

Policy:   “Conjunto de objetivos que enformam determinado programa de ação governamental e condicionam a sua execução.”

Politics: “Atividade exercida na disputa dos cargos de governo ou no proselitismo partidário.”

Policy é a salsicha; Politics, sua fabricação. As pessoas querem ver nobreza nas salsichas pois estas estão prontas, pesadas e empacotadas. Se estão lá para usá-las é porque alguém certamente cuidou para que não tivéssemos as inconveniências de fazer de um imundo porco uma massa rosa anódina, com a beleza simétrica e uniforme do que é artificial. Policy é o non olet da condução da Polis.

Policy também é outra coisa. Policy é quando o diálogo cessa. O ato de definir uma policy pode envolver diálogo mas, uma vez estabelecida, a policy limita o diálogo no campo sobre a qual a policy é exercida. Policy é o autoritarismo burocrático, o Graeber do post anterior. Quando as pessoas pedem uma policy elas estão pedindo que a negociação cesse, que as regras sejam claras e policiadas. Isso pode ser muito bom, muito claro, confiável, transparente. Mas uma coisa não é: democrático.

Politics é o campo da conversação. Quando as coisas são decididas por politics é porque elas foram negociadas, se chegou a um acordo por elas. O processo é inerente ao pacto, é o enforcement deste (police é o enforcement de uma policy, politics enforces a si mesma). Neste sentido, democracia-meio se confunde com democracia-fim, aponta para a democracia-“sem fim”, sem ponto de chegada pois os participantes da política são o fim em si mesmos, e não meios.

Engraçado é que usualmente vê-se as coisas trocadas. Eu mesmo via essas coisas trocadas até o momento em que, recém-cevado no anarquismo do Graeber, me vi numa palestra de uma cientista social (mais ou menos) de esquerda que pontificava por “políticas” quando, no fundo, o que ela propunha era a imposição de suas concepções sobre um mundo local diverso, que (já entendia eu naquele momento) deveria ser ouvido, que deveria ser autor de seu destino.

Mesma coisa em relação à oposição entre “de Estado” e “de Governo”. Um burocrata que afirma que sua instituição é “de Estado” está querendo afirmar que não importa o governo que for, ele não pode interferir no que o burocrata faz. A princípio pensamos: sim, as coisas precisam de continuidades maiores que a duração de um governo. Mas tem só um problema: quem define essas continuidades? A figura literal do rei, que no mundo em que os negócios da burguesia passam a conduzir o cotidiano incorpora o papel simbólico do Estado? Qual instituição “de Estado” deve ter imunidade em relação às decisões das instâncias eleitas?

Há uma confusão entre o que é um exercício tecnicamente correto e sem a paralisia que os transtornos de aprendizado e os custos de transação que uma política de espólios causaria, com a autonomia para fazer o que bem entende dos funcionários públicos. O Civil Service serve à Rainha tanto quanto o Primeiro-Ministro. Mas é a este a quem ele, na prática, na quase totalidade das vezes deve obediência – o que não invalida o fato de que Caesar non supra grammaticos. Capisce?

Mas mesmo a língua move, mesmo ela é constante recriada ao ser replicada, e ao fazê-lo de forma errada, mesmo ela evolui. Policy conduzida pelo “de Estado” atende a “I don’t want knowledge, I want certainty”. Politics que (se re)produzem (n)o “de Governo”, rumando ao incerto, ao móvel… ao desenvolvimento… sim, ao Desenvolvimento.

Neste sentido, a busca de autonomia burocrática significa a cristalização do mundo numa utopia, leme travado em direção a uma resolução, a um repouso final. Já a subordinação do burocrático significa a subordinação da condução do mundo ao concreto, ao cotidiano. Idealismo versus empiria, práxis.

Michael Hardt, cuja definição de um governo de esquerda é aquele que avança o movimento social, na sua revisão da experiência dos “occupies”, resgatou uma proposição de Mario Tronti, um teórico do operaismo italiano dos 60-70. A visão tradicional é de que a liderança tem um papel estratégico, de formulação de longo prazo, de criação da visão, enquanto à massa cabe a implementação dessa agenda da liderança. Inversão proposta: a assembleia produz a diretriz, o estratégico, a visão, a agenda; a liderança é estabelecida para conduzir os aspectos táticos. Não cabe aqui agora uma discussão mais ampla das questões relativas a formulação, mas a princípio podemos dizer que tanto Orçamento Participativo das prefeituras do PT em Porto Alegre quanto o PPA Participativo do governo do falecido Marcelo Déda são tentativas de implementar essa inversão. Subversões, portanto, à autonomia dos burocratas e à correção técnica de seus talentos como forma de definir o que há de ser feito.

(Pequena notinha de meio de conversa: fora desse caminho de esquerda, temos o conhecido caminho conservador de representantes que foram votados. Se bons ou maus, não importa, foram votados. Chamemos democracia, chamemos república, não importa. Representantes, votados, Agentes claros do Principal. Pra mim, Samurai, serve. Diria até que If this is paradise / I wish I had a lawn mower)

No ideal platônico da utopia de um mundo perfeito de reis-filósofos, de um poder que faz o Certo, da própria ideia de que existe o Certo… bem, nesse mundo essa desordem do empoderamento da malta, de escutar seu burburinho, sua gramática errada… essa desordem tem que acabar!

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Fosse a revolta apenas a fúria da burocracia de não ver no PT seu rosto no espelho! Não. Há mais. Há outro aspecto de solidariedade – ou seria de identidade – que tem passado ao largo.

Fé.

O galã global dos procuradores é um cara que vive a peregrinar por igrejas batistas a fazer pregações contra a corrupção. A esposa daquele que conduz o auto-de- de Curitiba tem bem menos que seis graus de separação do vice-govenador do Paraná, que pertence aos Orsini dos católicos de SP-PR. Há muito de Opus Dei nos gestos, nos cortes de cabelo, nas posturas de corpo de alguns desses golpistas. Sintomaticamente, o último nome que Dilma apontou para Ministro da Justiça – Dilma cujo partido PT tem como um dos principais movimentos sociais aliados o católico MST – é um ex-adepto da União do Vegetal. Curiosidade ou o fato de que o establishment dos católicos de elite após os anos de Wojtila e Ratzinger foi totalmente tomado pelos grupos conservadores?

Às revoltas anteriormente descritas se soma esta revolta contra um mundo em que todo um conjunto de novos, pervertidos atores, se manifesta. Mundo onde rompeu-se o Dharma de cada um saber o seu lugar, o seu gênero, a sua obediência. O cristianismo conservador é o chibólet não publicamente manifestado (mas ostentado) por este povo com sua primazia da honestidade e da Lei. O reino dos juízes, dos justos.

Na fogueira das vaidades desses nossos Savonarolas as obras-pagãs de nosso desenvolvimento – as empreiteiras, as empresas públicas, o que há de welfare como direito geral (e não como caridade) – irão arder no pregão da avidez por ativos reais dos chineses, das jogadas espertas dos fundos-abutres. Aquilo que esses obreiros pedem a Jove, teremos. Depois, depostas quando não mais interessar à Grande Miami, à Paulista, as carpideiras irão chorar por décadas a fio seus revolucionários tragados pela dinâmica das revoluções. Mas tragados serão, como todos revolucionários, como todos que sonham com um paraíso que pode ser atingido, com o ponto final.

Quando Chico cantava

“Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”

…ele talvez não se desse conta que era o Portugal de Marcelo Caetano, de Oliveira Salazar, o Portugal livre da corrupção onde os grandes bancos e a exploração colonial eram as formas de burguesia e riqueza, onde o paraíso para os não poucos era um lugar concreto: fora do país.

O que me trouxe aqui.

Moops’s Coup – Parte 1

CAPÍTULO XIII – Idéia do despotismo

Quando os selvagens da Luisiana querem ter frutas, cortam a árvore e apanham a fruta. Eis o governo despótico.

(O Espírito das Leis, livro V capítulo 13)*

 

Um juiz do interior derruba as comunicações no país. Não que isso me afetasse pessoalmente: sou um raríssimo ludita sem smartphone – uma restrição conscientemente auto-infringida, como a de não saber dirigir. Mas isso não se aplica à faxineira de onde moro. Ou a quase todo mundo com menos de 70 anos que conheço. Negócios, rotinas familiares – tudo parou, Yggdrasil digital derrubada em nome de Deus e da lei.

“Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país; o problema é o guarda da esquina”, dizia Pedro Aleixo numa sexta-feira 13, dezembro de 68 (pois, país da piada pronta, se a revolução fora no dia dos tolos, o terror viria também num dia adequado). O problema de uma lei assim… que problemas haveria numa lei assim?

Bem essa lei logo de cara pedia um regime em que se “assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, (…), na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, “os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direito e imediato, os graves e urgentes problemas (…)” Vai ver alguém até falou isso no Senado ou na Câmara numa das votações do impeachment. Ou dá para, pegando fragmentos de discurso construir esse texto (fica a sugestão para um não-ludita com tempo e paciência, montar esse video)

Essa lei permitia (a quem era valoroso para empunhá-la) cassar o mandato e os direitos políticos de um parlamentar. Algo excepcional, sim, mas um Ato Institucional é uma atribuição de poderes de exceção. Mas hoje, num ambiente democrático, transparente, uma situação de emergência pode levar a interpretação rara, pioneira, fundadora de precedente: a de que o mandato de um parlamentar possa ser suspenso (por enquanto pelo Supremo). Um parlamentar que atente a ordem, à segurança das instituições. Por mais abominável que Eduardo Cunha possa ser, em que a atribuição do poder de suspender seu mandato difere de uma cassação? Tirado este coelho da cartola, o que o impedirá de se reproduzir, como apraz aos coelhos?

Essa lei permitiu também significativas alterações na legislação eleitoral, como na edição do Pacote de Abril. Entre outras coisas, este estendeu a Lei Falcão, que restringia o horário eleitoral a uma sucessão de fotos e currículos. Algo, como, por exemplo, a resolução do TSE em 1994, que impedia o uso de imagens gravadas fora de estúdio (artigo 29), o que nivelava os demais candidatos contra os abusos daqueles com um bom acervo de imagens externas.

Nada que, no intuito de defender a Constituição, tivesse sido o TSE assim tão original e poderoso. Dois momentos, exuberantes momentos:

Momento 1 – TSE, 2002.

O então companheiro de partido de Dilma Rousseff, Miro Teixeira (que votou “Sim!”), pede ao TSE para examinar se coalizões partidárias estaduais poderiam ser diferentes das nacionais. Claro que não, respondeu o TSE, alterando uma prática que valera para as eleições anteriores. Como consequência, anos depois, onde originalmente se lia:

  • 1º – É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento, devendo seus estatutos estabelecer normas de fidelidade e disciplina partidárias.

Passou a estar escrito na Constituição:

  • 1º É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 52, de 2006)

Sim, a Constituição é detalhada demais. Especialmente quando o judiciário resolve legislar.

Momento 2 – STF, 2007.

O STF resolve realizar uma reforma política decretando que o deputado ou vereador que trocar de partido perderá o mandato. Bem, isso tem só uns probleminhas básicos como o fato de que os deputados são eleitos segundo sua ordem em chapas de coalizões – e não em partidos. Esse pequeno equívoco do judiciário sinaliza por si só a desmedida atenção com valores mais profundos em detrimento da empiria em questão. O importante é que o troca-troca de partidos “é uma prática constitucionalmente ilícita de mudar o resultado eleitoral das urnas fora das urnas”, como disse o Decano.

E tudo isso poderia ser até superbacana não fosse o seguinte fato: em 3 de março de 1988, a Assembleia Nacional Constituinte, que vem a ser o conjunto de cidadãos que escreveu esse documento chamado Constituição de 1988, votou (página 129-132), com 79 votos SIM e 309 votos NÃO (e 15 abstenções) a seguinte proposta:

“Perderá o mandato quem se filiar a partido diverso daquele pelo qual se apresentou a sufrágio, salvo em caso de extinção do anterior.”

Levando-se em conta que para se aprovar a proposta eram necessários 280 votos, digamos que a Assembleia rejeitou de reforma cabal e explícita a ideia que o STF, como se a única forma de jurisprudência que conhecesse fosse a de seus próprios órgãos, resolveu interpretar depois. Mesmo Nelson Jobim votou NÃO.

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Antes de seguir em frente, uma pequena, reducionista, simplificada visão da sociedade brasileira. Um pequeno cavalo esférico e sem atrito de forma que possamos entender o movimento. Uma fábula.

Vamos pensar o país dividido em duas partes: as que contam (a Capital e o Capital; o Centro, o dinâmico) e aquelas que não servem pra nada (os grotões e o grotesco, o latifúndio improdutivo e seu espelho assentado). Na década de 80 fazíamos uma piada sobre onde passaria a linha Elba Ramalho. Reza a lenda que numa excursão dela pelo Sulmaravilha um empresário teria levantado da plateia após a música Nordeste Independente e dito “Topo! Quanto é o cheque que eu faço agora?”. Havia quem dissesse 10 quilômetros acima de Montes Claros. Havia outros um pouco menos detalhistas. Mas a ideia de que há um Brasil nobre, dinâmico, que não é desenvolvido falta pouco mas logo logo logo dominaremos a flor vermelha e nos tornaremos iguais ao mundo de onde nossos avós emigraram (Confederação, Europa, Japão) e que só não chegamos lá ainda por conta dessa gente indiaolente / corrupta/ ignorante, gente da terra… bem essa ideia está presente naquele pensamento social brasileiro criticado pelo Jessé n’A Tolice, está em Victor Nunes Leal (que possivelmente escapa do tacape do Jessé por ser ciência política – ou quem sabe por trazer uma contradição mais complicada para o discurso do Jessé: mas essa é outra história ao qual volto depois).

Vamos supor uma segunda divisão. De um lado, o Bacharel, o portador da Verdade (ainda hoje, majoritariamente jurídica – e aqui eu incluo os economistas, que, como o povo do direito, não entendem essa 2ª tese do Latour. Poderíamos usar alternativamente profissionais liberais ou professional class, o que até seria mais preciso em relação a este Golpe com apoio dos médicos, mas que não têm a mesma ressonância histórica). O Bacharel traz seu conhecimento de fora. A ele se contrapõe a prática ignorante dos que cá estão, sejam esses coronéis, comerciantes, trabalhadores. Como moldura na borda desse quadro temos o saco de batatas sob os coronéis de um lado e a burguesia para quem parte dos profissionais trabalha por outro.

Relembrando, esse é um desenho sem atritos, reentrâncias e detalhes, uma rua do Recife onde se ergueram prédios. E nesse desenho três grupos: os bacharéis e os trabalhadores no Centro, os coronéis (com seu saco de batatas) nos Grotões. Ou: a UDN, o PTB e o PSD, no desenho do país mais simples (talvez porque já ao longe) de seis décadas atrás.

Antes do Ato Institucional nº 1, na UDN, as vivandeiras dos quartéis (bacharéis) insuflavam (seus gêmeos) militares pela derrubada da união do atávico com a malta (PSD e PTB). Dado o golpe, o PSD prontamente aderiu. Já os marmiteiros… silenciaram-nos a força e o crescimento na época do Milagre. Até que gradualmente…

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Mas voltemos. Voltemos ao hoje. Voltemos ao Golpe.

Quando imaginamos um golpe, imaginamos blindados, fuzis, militares fardados. Tais atributos, no mundo tão recentemente próximo dos Estados Nacionais, são a própria definição de Estado, de Nacional, de monopólio do Leviatã sobre o lombo dos súditos, de língua enquanto dialeto com exército. Lovely plumage etc e tal mas não mais, definitivamente não mais. Num mundo totalmente colonizado… perdão, globalizado, os mesmos instrumentos que os exércitos dispõe estão no arsenal das forças policiais. Conquanto, no caso destas últimas eles são de fato utilizados. Em raros lugares ainda o exército (tipo Tailândia), mas na maioria dos casos no abraço armado da lei.

Police are, essentially, bureaucrats with weapons” nos explica Graeber (neste ensaio, que no livrinho rosa ganhou um twist final interessante). Pensamos violência como sendo algo perpetrado, esporadicamente, desregradamente, só por músculos e armas. Por vezes isto até acontece. Mas elas são a ponta do iceberg: a burocracia e suas regras são violência institucionalizada, violência que se faz presente não só num sentido “simbólico”.

Então, ao invés de pensarmos num Golpe no formato clássico:

um conjunto de militares (com menos unidade e comando do que parecem ter para quem está do outro lado) que insuflado por vivandeiras toma o poder; que expurga (primeiro como Marcos 9:40; depois como Mateus 12:30); que toma gosto pelo poder; que abusa dele até o ponto em que mesmo as vivandeiras resolvem pedir o imóvel de volta.

Pensemos um formato alternativo:

Um conjunto de instituições de força (com mais unidade e comando do que parecem ter para quem está do outro lado); que insuflado por vivandeiras toma o poder; que expurga… será a sequência a mesma?

O Judiciário, seus braços armados do aparato policial e da procuradoria – nominalmente do executivo, mas crescentemente autônomos – gradualmente assumiram o papel da resolução cotidiana de conflitos, da determinação de como o executivo deve conduzir-se (exemplo rápido: liminares sobre remédios), do que as leis na prática querem dizer. Ao invés de Exército, Marinha, Aeronáutica (com apoio gradual das polícias estaduais), como no golpe de 64, pensemos em Judiciário, Polícia Federal, Ministério Público (com apoio das polícias estaduais). Ao invés de olharmos para algo construído com uma hierarquia explícita, pensemos que essas instituições operam de forma mais fluida, rizomática, contemporânea às formas de organização do social contemporâneas. Ao invés de olhar para algo que acontece num instante exato do tempo (um eclipse) pensamos em algum evento lento (um trânsito de Plutão) acontecendo… O Golpe vem sendo gradualmente dado há anos. A oportunidade de consolidação surgiu só agora. Ela precisava de um governo que abandonasse o PSD – perdão, o PMDB – à própria sorte.

Entendida então a premissa deste post de que as instituições de força (leia-se, aqueles Agentes legitimados a praticar o arbítrio e a violência) tomaram de fato o poder e que isto – e não o PMDB – é o Golpe? Então avancemos. Que ideologias congregam os golpistas? Quem são as vivandeiras de hoje? Quais as próximas etapas de consolidação do Golpe? O que fazer?

 

*(Livro V, capítulo 13: será a insidiosa junção entre black blocks e o lulopetismo?)

Inês é Morta/Dunquerque

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Sejamos realistas. Acabou.

Por mais que se faça um carnaval o golpe está consumado. O golpe está consumado desde o dia em que a PGR resolveu que o Lula não poderia tomar posse; desde o dia que o STF resolveu que o processo de impeachment poderia seguir em frente com a sequência de votação proposta pelo Cunha.

O que se passou no domingo seguinte foi apenas o reconhecimento por parte da pragmática Câmara de Deputados que o golpe havia sido dado, que não eram meros tanques de Minas – era a Instituição em peso. Otários que não são, aderiram. Como em 64. Como em 85. Como em 92.

Não que manifestações não devam ser feitas. Mas, como as cartas de amor, elas são inúteis. Pois cartas de amor essas manifestações são. Mas Inês é morta, Dilma em breve deposta, com sua empáfia, com o seu narizinho empinado de coxinha honesta –  e é isto que ela é, coxinha honesta. Lembro de alguém no Pasquim, um daqueles gaúchos ultra-banidos pela ditadura, ter dito que havia dois Jangos em Jango – o líder de esquerda e o estancieiro – e que no final Jango, o fazendeiro triunfou sobre o potencial revolucionário. Dilma é a mesma coisa: militante de esquerda de um lado, economista tecnoburocrata do outro, com sua classe de fato triunfando sobre seu proferido alinhamento.

E agora? Bem, agora é hora de começar outra luta. Esquecer o leite derramado e começar outra luta. E essa luta não é por novas eleições ou pela revogação do impeachment. Tal como as Diretas, isso é só fazer o papel de massa de manobra para alguns jogos de elites. Energia gasta em catarses inúteis. Como as micaretas de junho de 2013, tão celebradas.

Há uma eleição este ano. Produzir uma chacina nos establishments políticos municipais dos grupos pró-golpe é crucial. Mas pra que isso aconteça é necessário que as manifestações tenham um foco local. É necessário que as candidaturas tenham o objetivo claro de ganhar as eleições e não de “avançar a causa” (a la Gabeira-86, Freixo-12, Freixo-16). É necessário que o território seja tomado, que as máquinas locais sejam confrontadas. Não em todo país – mas nos grandes centros, nas “capitais” das mesorregiões, nas cidades que operam centralidades. Que os esforços sejam “cientificamente” dirigidos aonde há mais fragilidade, aonde doer mais.

A ideia que se pode tomar a Presidência da República para se conduzir as transformações tem que ser enterrada. Não que isso não venha a ser feito, mas é exatamente este tipo de proposta elitista que permite a cooptação da esquerda pelas elites, sua transformação em “Reforma” (afinal, lembremos que na virada dos 80, quando o de vastas sobrancelhas era o Papa, a Reforma era brezhnevista – e hoje é braço auxiliar de uma facção do tucanato). Tem que se entender que, como diz Hardt, esquerda é quem avança o movimento social. Retórica não ganha eleições. Esse é um mito que a rebarba das elites (da qual faço/fazemos parte) quer alimentar, mas “vai achando que é só Playboy que vive em Copacabana”.

Consumada a deposição, o que nos espera? Bem, minha narrativa de cartomante:

– Temer e seu grupo de alegres senhores do PMDB – que foram governistas com FHC, que em certo momento foram governistas com Dilma – irão conduzir uma política não de cinquenta anos em cinco, mas de dez anos em dez meses. Qual seja: todo o processo de pilhagem do estado conduzido entre a demise de Collor e o consulado dos Pedros (Malan e Parente) num ritmo de liquidação da Casa & Vídeo.

– A economia brasileira se encontra numa sinuca. As saídas possíveis envolveriam um nível de heterodoxia impossível com o atual conjunto de instituições que temos. LRF, BACEN, MPU, CGU… letrinhas diversas que, a menos de uma refundação radical (como, por exemplo, um golpe militar), irão bloquear qualquer conjunto de ações que, na minha particular visão de mundo, poderia produzir resultados concretos.

– Como dificilmente se poderá retomar o crescimento – e como mesmo que salva do ponto de vista financeiro o PIG continuará incapaz de produzir votos – o Governo Temer terá baixo suporte e baixa legitimidade. Terá povo nas ruas. Mas ele precisa durar só dez meses, não mais que isso. Por que? Porque a partir de janeiro não só não haverá mais o desgaste de Cunha na presidência da Câmara como Temer poderá ser substituído por alguém que venha a ser eleito pelo Congresso para um mandato-tampão. Esse alguém pode ser, por exemplo, Nelson Jobim, ex-deputado, ex-Supremo, ex-FHC, ex-Lula… Catarse executada, cabeças corruptas cortadas, bode fora da sala.

– Não creio que mexidas radicais em assuntos complexos como a reforma da previdência sejam feitas nesse período. A Câmara não se compõe de suicidas. Medidas babacas no campo social e ambiental, essas sim acontecerão aos montes. Elas vão servir, entre outras coisas, pra possibilitar negócios, induzir salivação de parte das bases reacionárias de perto de um terço da Câmara. Elas farão com que parte da esquerda fique putinha fazendo abaixo-assinados enquanto o essencial se perde, novos paraísos artificiais do mundo do avaaz.

Entender quem deu este Golpe, como e com quais interesses é algo sobre o qual farei algumas hipóteses em alguns outros posts. De São Paulo já falei. Há outros.